Mães israelenses pedem recuo de tropas e são insultadas

Um grupo de mães israelenses promoveu, nesta sexta-feira, em Jerusalém, uma passeata pela paz, em defesa de seus filhos e pela retirada do Exército de Israel dos territórios palestinos em meio a insultos e ameaças de seus compatriotas. "As mães elegem a vida", lia-se num cartaz carregado por uma mulher de meia-idade, que foi arrancado por um pedestre que a golpeou no rosto."Vacas! Que seus filhos morram", gritou um homem fora de si. "Vocês são o pior de Israel, nos levarão a outro holocausto." No cruzamento de duas ruas movimentadas da periferia de Jerusalém, no bairro de Mevasseret Sion, 11 mulheres de meia-idade pediam a retirada israelense dos territórios.As manifestantes receberam mais insultos do que apoio de seus compatriotas. Elas integram um novo movimento nascido há três dias em Jerusalém, a "Quinta Mãe", numa alusão à passagem bíblica do Gênesis que narra que Abraão teve um filho árabe, Ismael, com a escrava Hagar, e outro judeu, Isaías.As outras quatro são as mães bíblicas do Estado judeu. A psicóloga Michal Eshel-Grossman e a cenógrafa Orit Livnin-Dagani disseram contar com o apoio de 150 mães, todas com seus filhos fazendo o serviço militar obrigatório. "Não durmo mais, ligo sempre para ele, e quando ele não pode atender fico ansiosa, esperando", disse Livnin-Dagani."Não escrevo mais nada, passo os dias na frente do computador para ver o que diz a mídia internacional, buscando notícias", acrescentou. Seu filho de 19 anos ainda tem de cumprir 18 meses de serviço militar com as tropas estacionadas em Ramallah, Cisjordânia.Antes de partir, seu herói era (Bertold) Brecht", revelou a cenógrafa, de família polaca, nascida em Israel. Livnin-Dagani se abalou quando um homem a insultou e amaldiçoou, desejando a morte de seu filho. Na semana passada, uma das ativistas do grupo Mulheres de Negro sepultou seu filho, oficial do Exército, morto num enfrentamento com militantes em Hamas, Cisjordânia."Sua morte foi inútil, assim como é inútil a morte de tantos jovens que caem todos os dias nos territórios", afirmou a uma agência local Malca Zemach, do kibutz de Hulda, Rehovot, onde reside. "Meu filho era um pacifista entusiasta", acrescentou, "mas considerava equivocado se recusar a fazer o serviço militar nos territórios"."É uma guerra injusta, não devíamos estar lá", sustentou Livnin-Dagani. "As mães pensam com o coração, esta é a sua força", opinou Dorit Kafri, que tem um filho e uma filha, que, como muitos outros jovens, não querem assumir a tarefa militar. Em Israel, os maiores de 18 anos devem cumprir o serviço militar, três anos para os homens e dois para as mulheres.A Anistia Internacional denunciou que os críticos de consciência sofrem detenção e que é uma discriminação eximir do serviço mulheres ortodoxas e oferecer um adiamento para os homens que fazem cursos religiosos. "Queremos ser as mães de uma nova nação, sem violência nem a imoralidade que vemos diariamente", afirmou Arella Shedim.Algumas das promotoras do movimento, que se une ao Mulheres de Negro, Mulheres de Verde e Sétimo Dia, têm contatos com mães palestinas e desejam coordenar esforços com elas. Um grupo das Mulheres de Negro também promoveu uma manifestação nesta sexta-feira na Praça Paris, no centro de Jerusalém.A cidade, com bloqueios em diversos pontos, está vazia, fechada pelo medo. "Todos estão em casa, cabisbaixos", resumiu uma mulher, apesar de hoje ser fim de semana em Israel. O trânsito existia apenas nas proximidades do cemitério, onde foi sepultado um jovem casal assassinado no atentado desta quinta-feira, no qual também morreram outros dois israelenses e o camicase.Gadi Shemesh, de 34 anos, e sua mulher Tipsi, de 32, haviam acabado de sair de um exame de ultrassonografia para saber o sexo do futuro filho do casal. A explosão na rua central Rei George os matou no momento em que a filha deles, de sete anos, assistia à tevê, cuja programação foi interrompida para dar a notícia do atentado.

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