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AP Photo/Ricardo Mazalan
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Mães reencontram filhos guerrilheiros na Conferência das Farc

Quando um parente entra para o grupo, perde contato com a família; mães vivem angustiadas sem saber se filhos estão vivos

O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2016 | 15h35

EL DIAMANTE, COLÔMBIA - Quem entra para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) perde o contato com a família, que passa a conviver com a ausência, razão que levou várias mães à conferência da guerrilha em busca dos filhos, com a angústia de saber se ainda estão vivos.

Judith tem sorte. Ela saiu há quase uma semana de um pequeno vilarejo no departamento de Meta e viveu uma odisseia por caminhos de passagem quase impossível para chegar a Llanos del Yarí, a remota região onde está sendo realizada desde sábado a X Conferência Nacional Guerrilheira, que ratificará o acordo de paz firmado com o governo.

Sem querer revelar a idade, ela chegou a San Vicente de Caguán, considerada “capital" das Farc entre 1998 e 2002, durante os diálogos com o governo. De lá, fez uma escala após centenas de quilômetros e buscou uma alternativa para chegar a Llanos del Yarí.

"Fui a San Vicente e lá me perguntei: como chego?", disse. Os preços do transporte eram exorbitantes para uma humilde camponesa, que sentiu alívio quando soube que grupos de jornalistas se deslocavam em ônibus populares até a região.

Foram oito horas em uma estrada cheia de buracos, um tempo eterno para ela e para os jornalistas, muito mais jovens, que a acompanhavam. E era só o início.

Judith disse que precisou se instalar em um dos maiores acampamentos que as Farc já tiveram em sua história, no qual dormem cerca de mil guerrilheiros. Mas, no final, conseguiu encontrar o filho.

"Vim buscá-lo porque não o via há quatro anos e tinha que fazer isso. Foram quatro anos de sofrimento, é o (período) mais amargo da vida, sofro muito como mãe", afirmou enquanto abraçava Willington, vestido com o uniforme de guerrilheiro.

Ao longo desse tempo, a angústia era sentida principalmente quando a televisão exibia alguma reportagem sobre mortes no conflito armado. A mãe sempre pensava que podia ser Willington, após ter perdido os outros filhos em diferentes episódios da vida.

"Eu sabia (do risco de o filho já ter morrido), mas falei que vinha, foi intuição de mãe", comentou sobre a conferência de membros das Farc.

Judith não sabia se seu filho estava acampado em Yarí, mas apostou todas as fichas em sua intuição. A surpresa foi ainda maior quando, junto a Willington, viu pela primeira vez a parceira do filho, Verónica, que ele conheceu nas Farc. "Vim sozinho e conheci a minha namorada na guerrilha", contou o filho enquanto abraçava ambas.

Após seis anos nas Farc, Willington se surpreendeu ao voltar a ver a mãe antes de abandonar as armas. "Como um filho que não vê a mãe todos os dias, sempre que isso acontece fico muito contente. Não há palavras para expressar o sentimento em relação à minha mãe, sinto uma grande alegria por saber que ela está viva, porque a gente pensa que poderia ter morrido com o passar dos anos", comentou o guerrilheiro.

Veja abaixo: Colombianos festejam acordo de paz

Enquanto aguarda o dia do retorno para casa, Willington permanece com a namorada, com quem aproveita os momentos de paz, inclusive com apresentações musicais no acampamento.

"Ela é muito linda, estou orgulhosa de conhecê-la. É uma sogra muito bondosa e sei que vai nos aceitar", disse Verónica. Ela planeja um futuro com Willington, como uma família. "Nós, guerrilheiros, temos sentimentos e sonhamos ser alguém na vida. Estar fora significa muito para nossos pais e para nós também", ressaltou a guerrilheira, que está há sete anos sem ver a mãe. / EFE

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