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Máfia siciliana explora imigrantes que cruzam o Mediterrâneo

Investigação na Itália mostra que criminosos atuam nos centros de acolhimento e usam clandestinos em trabalhos forçados

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2015 | 03h00

GENEBRA - O pior acidente envolvendo barcos de imigrantes clandestinos no Mediterrâneo reacendeu na Itália a questão da participação de mafiosos do sul do país no tráfico de pessoas. No ano passado, o Ministério Público italiano começou a investigar o envolvimento dos mafiosos e encontrou desde exploração de centros de acolhimento até trabalhos forçados e prostituição. 

Muitos dos que conseguem chegar às praias da Sicília e outras ilhas acabam se transformando em verdadeiros escravos, presos por dívidas impagáveis e pela promessa de um visto. No fim de semana, o naufrágio de um barco que se dirigia à Europa deixou centenas de mortos. Tanto a Justiça italiana quanto a ONU chegaram à constatação de que o pesqueiro acidentado levava cerca de 850 pessoas, entre sírios, etíopes e pessoas que fugiam de Eritreia, Gâmbia e Somália. 


As investigações do MP italiana Sicília revelam que grupos mafiosos passaram a explorar a mão de obra dos imigrantes, controlam centros de acolhimento e ainda promovem um verdadeiro comércio de seres humanos, com o conhecimento e até a colaboração de funcionários públicos italianos. 

Em 2014, o MP começou a identificar como a máfia passou a controlar o maior campo de acolhimento na ilha de Lampedusa – de uma forma totalmente legal. Esses locais foram construídos nos últimos anos pelo governo para abrigar um número cada vez maior de estrangeiros, enquanto não há decisão sobre se serão deportados de volta a seus países de origem ou se ganharão status de refugiados.

O fluxo de imigrantes, portanto, passou a ser um grande negócio. Uma licitação foi aberta para o contrato de gestão e controle do acampamento destinado aos que buscam asilo na ilha italiana. Quem venceu o contrato, que tem duração de três anos, foi o grupo Consórcio Calatino, suspeito de ligação com a Cosa Nostra, a máfia siciliana. Para o operar o local, o grupo recebeu um total de 97 milhões de euros, recurso suficiente para dez anos de operações de resgate no Mar Mediterrâneo. 

O contrato chamou a atenção da Justiça, assim como o fluxo de imigrantes para apenas uma região. No ano passado, procuradores da cidade de Catânia já fizeram dez prisões de suspeitos, inclusive o de Giuseppe Castiglione, subsecretário de Agricultura da Sicília e suspeito de receber propinas da máfia para garantir contratos. Luca Odevaine, funcionário do Ministério do Interior, também foi preso, sob a mesma alegação. Numa escuta telefônica realizada pela Divisão Antimáfia do MP, ele teria indicado que a relação com a máfia permitia que “o fluxo de imigrantes fosse direcionado”. “Caso contrário, eles passaram por Mineo”, disse, em relação a outra cidade da Sicília.

A chegada de mais de 200 mil estrangeiros às costas italianas desde 2013 obrigou ainda o governo a buscar residências e antigos hotéis para que pudessem receber os imigrantes. A iniciativa também foi aproveitada pela máfia. Para cada estrangeiro acolhido, a empresa que administra um centro recebe cerca de 30 euros por dia. Até o final de 2014, 32,3 mil pessoas viviam nesses albergues, o que exigiu do governo subsídios de 1 milhão de euros por dia. A suspeita, porém, é de que parte desse negócio milionário tenha passado a ser explorado pela máfia.

Quem lidera a investigação é o procurador-chefe da Catânia, Giovanni Salvi, que em documentos obtidos pelo Estado sobre o caso não descarta que o envolvimento da máfia na gestão dos imigrantes possa ser bem maior que apenas o albergue de Lampedusa. 

Capital. Um dos eventuais envolvimento dos grupos criminosos italianos é com a prestação de serviços para os imigrantes também na região de Roma. Um terceiro caso ainda envolve centros de recepção de imigrantes menores de idade e que também estariam nas mãos da máfia. “Temos um importante processo que se refere aos centros para menores desacompanhados”, escreveu o procurador. “Essa é outra emergência, tanto do ponto de vista das crianças quanto da ilegalidade.”

Outros números revelam a dimensão do negócio. “Em 2013, 50 mil imigrantes chegaram. Em 2014, esse número subiu para 150 mil. Desses, 90 mil entraram pela província da Catânia. Existe uma investigação em andamento”, declarou Salvi referindo-se ao fato de que essas embarcações poderiam estar sendo direcionadas a um local para garantir maior renda para aqueles que operam os centros.

Nesta semana, o procurador declarou à imprensa italiana que não encontrou sinais de que o naufrágio do barco com mais de 800 imigrantes no fim de semana tivesse relação com a máfia. “Não estamos cientes do envolvimento da máfia com o acidente. Mas sim na exploração dos negócios na administração dos centros de acolhimento.” 

Ana Canepa, procuradora da Divisão Antimáfia na Itália, também confirma essa tendência. Segundo ela, o papel do crime organizado italiano não é na gestão dos fluxos de pessoas pelo mar. “A atenção da máfia está na administração dos centros e na exploração das pessoas, inclusive de crianças”, disse. “Está claro que esses locais se transformaram em espaços para fazer negócios.”

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