Magia da imigração

Magia da imigração

Um modesto concurso de ciências para jovens demonstra o quanto importante é a reforma migratória para os EUA

THOMAS L. FRIEDMAN, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Na semana passada, fui a um grande jantar em Washington no estilo salão enorme, black-ties, vestidos longos. Mas não era um evento comum.

Havia 40 convidados de honra com nomes como Linda Zhou, Alice Wei Zhao, Lori Ying, John Vincenzo Capodilupo e Namrata Anand. Não, não era um jantar da Liga da Amizade China-Índia. Todos esses jovens são estudantes americanos de segundo grau. Eles foram a maioria entre os 40 finalistas da Caça aos Talentos de Ciências da Intel 2010, que, por meio de um concurso nacional, identifica e homenageia estudantes que mais se destacaram em matemática e ciências nos EUA, de acordo com as soluções por eles encontradas para problemas científicos.

O jantar para a entrega dos prêmios foi na terça-feira, e - como vocês podem ver pela lista acima - a maioria dos finalistas pertence a famílias de imigrantes, em grande parte asiáticos. Se precisarem de um argumento ainda mais convincente sobre as virtudes da imigração, assistam às finais do concurso da Intel.

Eu sou um fanático defensor da imigração. Estou convencido de que permitir um fluxo constante de imigrantes legais no nosso país, em macacões de operários ou com jalecos de laboratório, é imprescindível para nos mantermos à frente da China. Quando unimos todas essas pessoas repletas de energia e dotadas de grandes aspirações a um sistema democrático e ao livre mercado, acontece uma espécie de mágica. Se quisermos conservá-la, precisaremos de uma reforma da imigração que garanta que continuaremos atraindo e mantendo sempre, de maneira ordenada, os escolhidos do primeiro time mundial, com suas aspirações e intelecto.

Não é tão complicado. No mundo conectado de hoje, a competição mais importante não se dá entre países ou empresas, mas entre você e sua imaginação. Porque o que seus filhos imaginam, agora podem executar. Hoje, praticamente tudo está se tornando uma mercadoria, com exceção da imaginação.

Se eu tenho uma ideia brilhante, agora, posso chamar um artista de Taiwan para que a transforme num projeto. Posso pegar uma fábrica na China para produzir um protótipo. Posso pegar uma fábrica no Vietnã para a produção em massa. Posso usar o site Amazon.com para distribuir o produto. Uso o freelancer.com para encontrar alguém que faça meu logo e para cuidar da parte administrativa. E posso fazer tudo isso a preços incrivelmente baixos. A única coisa que não é uma mercadoria, e nunca será, é o que torna essa ideia luminosa. O jantar da Intel destinava-se justamente aos jovens que têm as melhores ideias.

Antes do início do jantar, cada concorrente explicou seu projeto específico. Namrata Anand, de 17 anos, falou pacientemente sobre sua pesquisa, na qual usou a análise espectrográfica e outros dados para expor as informações sobre a história do enriquecimento químico da "Galáxia de Andrômeda". Não entendi uma palavra do que disse, mas percebi o brilho dos seus olhos.

Mas a conversa mais interessante foi com Amanda Alonzo, uma professora de biologia da Lynbrook High School de San José, Califórnia. Ela deu aula a dois dos finalistas. Quando perguntei qual era o segredo, respondeu que foram os pais que deram apoio aos filhos e uma bolsa que a permitiu dedicar parte do dia preparando estudantes. Depois contou: as imobiliárias de San José estão publicando anúncios na China e Índia dizendo aos imigrantes em potencial que "comprem uma casa" no distrito escolar de Lynbrook, porque produziu "dois ganhadores do prêmio de ciências da Intel".

Devo dizer que foi a noite mais inspiradora que já tive na capital nos últimos 20 anos. O evento me fez pensar: "Se conseguíssemos que algumas coisas dessem certo - imigração, educação, política fiscal - talvez pudéssemos ser felizes." E acreditar que a menina escolhida pelos finalistas para ser a oradora da turma estivesse certa ao dizer: "Não fiquem ansiosos com os problemas que a nossa geração terá de enfrentar. Acreditem, nosso futuro está em boas mãos." Desde que não fechemos as portas. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA E ANALISTA POLÍTICO

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