Magnata britânico investe em 'parceria' com socialistas

Comprado por Robert Hanson, jornal de maior tiragem da Venezuela suaviza críticas a governo de Nicolás Maduro

BRIAN ELLSWORTH, REUTERS / CARACAS , O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2014 | 02h02

O empresário britânico Robert Hanson tornou-se um improvável magnata da mídia venezuelana. Há muito tempo alvo das colunas sociais londrinas, beneficiou-se durante muitos anos da companhia de modelos famosas. Ele é o filho do industrial Lord Hanson, que fez fortuna com a compra do controle de empresas e foi um destacado patrono da primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, nos anos 80.

A holding de Robert Hanson adquiriu no ano passado o jornal de maior tiragem da Venezuela, Últimas Noticias, apesar dos seus péssimos resultados financeiros e do rigoroso controle do câmbio imposto pelas autoridades, que frequentemente fazem com que as empresas estrangeiras não consigam remeter seus lucros à matriz.

Embora se trate de uma estranha parceria, Hanson, de 54 anos, e o governo socialista do presidente Nicolás Maduro aparentemente mantêm um harmonioso relacionamento de negócios.

O Últimas Noticias nomeou dois dirigentes do principal partido chavista, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) para postos-chave. O ex-assessor eleitoral Héctor Dávila, por exemplo, ocupa o cargo de editor-presidente da companhia.

Dezenas de repórteres demitiram-se desde a aquisição de Hanson, cujas empresas principais não operam na imprensa, nem na América Latina.

O repórter José Ángel Mata afirmou que foi obrigado a retirar do site do jornal um artigo sobre as queixas de um ex-ministro segundo o qual o PSUV estava asfixiando a dissensão interna. No Twitter, o jornalista comentou a respeito e exibiu o que seria a foto de uma nota escrita à mão com a ordem. Mata também citou o incidente como uma das razões para ter, posteriormente, se demitido.

Investimento. Hanson adquiriu o jornal pelo equivalente a US$ 98 milhões, segundo documentos da companhia consultados pela Reuters, apesar de uma queda dos lucros de 92% do jornal naquele ano e de seu considerável endividamento no exterior.

Hanson, cujo grupo Hanson Family Holdings inclui uma empresa de serviços financeiros, uma empresa de embalagens reutilizáveis e outra de logística, não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.

Dávila, entretanto, diz que o Últimas Noticias continua criticando o governo, nega ter abrandado sua posição para obter o beneplácito das autoridades e diz que as críticas que o acusam disso se baseiam na emoção, não nos fatos.

"Se você procura queixas contra o governo, pegue qualquer edição do jornal e conseguirá achar quantas quiser", disse Dávila, especialista em computação e defensor histórico das causas da esquerda.

Numa entrevista, ele folheou as edições passadas e apontou artigos sobre uma variedade de problemas, da decadência dos hospitais públicos à corrupção por grupos comunitários que têm o respaldo do Estado.

O editor-presidente disse, também, que as únicas instruções que recebeu de Hanson foram para que dirigisse um jornal equilibrado e lucrativo.

Além do Últimas Noticias, mais dois grandes grupos de mídia da Venezuela passaram para as mãos de novos proprietários nos últimos 20 meses - a emissora Globovisión e o jornal El Universal. Eles também reformularam a cobertura e, segundo os repórteres, abrandaram as críticas ao governo.

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