REUTERS/Jonathan Ernst
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Magnata vai à França

Macron receberá Trump na Champs Elysées, durante a festa nacional francesa de 14 de Julho

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 05h00

Para governar a França, o novo presidente, Emmanuel Macron, tem um arsenal de ferramentas que seus predecessores, à exceção de Charles de Gaulle, não conheciam bem. Por exemplo: em vez de passar seu tempo na TV proclamando sua genialidade (como fazia Nicolas Sarkozy) ou mostrar hesitação (como François Hollande), Macron prefere o silêncio.

Mas, de tempos em tempos, lança uma frase que viaja longamente até desembocar numa reviravolta diplomática. Como esta, que disse há dez dias: “A França não faz da saída de Assad um pré-requisito para a solução do drama da Síria”.

Outra ferramenta macroniana é o prestigiado patrimônio francês de mil anos de história de reis, guerreiros e repúblicas – um legado que pode ser adaptado a cada personalidade convidada. Quando convidou Vladimir Putin a visitar Paris, recebeu-o no Palácio de Versalhes, ou seja, na corte do rei Luís XIV, aquele que proclamou esta síntese certamente agradável aos ouvidos de Putin: “O Estado sou eu”.

Desta vez, Macron vai receber Donald Trump em Paris, na festa nacional francesa do 14 de Julho. O americano assistirá ao majestoso desfile militar na Champs Elysées. Convidar Trump no momento é algo insólito, tão desgastada está a imagem do americano entre os europeus. Enquanto Barack Obama seduziu a Europa no primeiro gesto, Trump, no primeiro gesto, deixou o continente consternado.

Nos últimos dias, Trump teve de cancelar uma ida ao Reino Unido para evitar a fúria do povo britânico. Mas participará nos dias 7 e 8 da cúpula do G-20, em Hamburgo, Alemanha, o que está pondo a polícia alemã em pé de guerra ante a expectativa de violentos protestos.

Mesmo assim, Macron convidou o presidente americano para o desfile do 14 de Julho. O convite parece estranho, uma vez que Trump é tão malquisto em Paris quanto em Londres ou Hamburgo. Mas, apesar de tudo, os EUA são o maior ator da atualidade.

O convite permite evocar outra ferramenta diplomática de Macron: sua recusa em assumir posições ideológicas engessadas tendo em vista a má conduta do outro, ou mesmo seu desdém em relação a certos princípios essenciais para o Ocidente. Constata-se assim que Macron é um adepto da máxima do pensador italiano Nicolau Maquiavel: o realismo vem antes da ideologia. Os princípios essenciais continuam intocáveis, mas se o outro não compartilha deles, negocia-se e conversa-se mesmo assim.

Vemos no convite a Trump o mesmo pragmatismo que levou Macron a abandonar, como pré-requisito para qualquer acordo sobre a Síria, a saída de Assad do poder. Macron não tem Assad na mais alta consideração, mas sabe que, enquanto se fala de direitos humanos, inocentes são mortos e um país está prestes a ser destruído. Vamos, pois, tentar conversar com os responsáveis.

Vale lembrar ainda que Putin, apoio inquestionável de Assad, só tem em mente o interesse de seu país em estabelecer uma cabeça de ponte no Mar Mediterrâneo e a luta contra o Estado Islâmico. Nesse sentido, por mais diferentes que sejam Putin e Macron, encontramos nos dois a mesma afinidade com Maquiavel. O que pode um dia beneficiar as relações entre Paris e Moscou. A Rússia é um ator inevitável no grande drama geopolítico de nosso tempo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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