Magnatas vivem tempos difíceis na Rússia de Putin

Além da perseguição, crescem evidências de que as condições para investir suas riquezas no país estão se reduzindo consideravelmente

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h02

Nikolai Maksimov, um dos homens mais ricos da Rússia, ficou preso numa cela suja, nos Urais. Na semiescuridão, ele via apenas seu companheiro de cárcere - um homem que parecia sofrer de tuberculose, uma praga nas prisões russas. "Tinha a sensação de ter sido colocado naquela cela de propósito", lembrou, após de ter sido libertado sob fiança.

Preso em fevereiro por suspeita de enriquecimento ilícito, ele não é o único magnata russo que teve problemas do tipo. Entre os seis homens mais ricos da lista da Forbes na Rússia, na década passada, um deles, Mikhail Khodorkovski, está na prisão, e outro, Boris Berezovski, está no exílio. Assim como Maksimov, eles se declaram inocentes.

Antes mesmo que as autoridades russas tratassem de dissolver os protestos contra o governo e o premiê Vladimir Putin, os ricos da Rússia estavam ficando muito agitados. Crescem as evidências de que as condições para manter e investir suas riquezas estão se reduzindo consideravelmente - o que poderá se tornar uma ameaça à economia.

As privatizações pós-soviéticas permitiram que fábricas controladas pelo Estado passassem para as mãos de um grupo de empresários muito bem relacionados - os oligarcas. Em parte como consequência disso, a Rússia ganhou 101 bilionários.

Somente agora, volta a ocorrer a fuga de capitais, que foi um grave problema nos anos 90. O dinheiro sai da Rússia mais rapidamente do que entra. As somas líquidas que deixam o país deverão alcançar os US$ 70 bilhões até o fim do ano e os números sugerem que o grosso desse montante será de recursos de grandes investidores.

Yaroslav Lissovolik, principal economista do Deutsche Bank da Rússia, observa que "a escala da fuga de capitais contrabalançou o aumento dos preços do petróleo". Mesmo que a produção petrolífera se mantenha e os preços do produto permaneçam relativamente elevados, segundo estimativas do Ministério das Finanças russo, a conta corrente do país ficará deficitária até 2014. Então, a economia da Rússia, assim como a dos EUA, dependerá do ingresso de investimentos, dizem os economistas.

O governo russo obteve recentemente ganhos modestos atraindo investimentos estrangeiros. O problema é que para cada companhia estrangeira que investe - desde a Exxon até a Cisco Systems - cresce o número de empreendedores russos que procuram sair do país, por considerar os riscos excessivos.

As autoridades acreditam que o petróleo poderá manter a Rússia somente até certo ponto e estão ansiosas para atrair investimentos de todas as partes. "O mais espantoso é que elas estão mais satisfeitas com os investidores estrangeiros do que com os nacionais", afirma Clemens Grafe, principal economista do Goldman Sachs na Rússia.

É difícil saber até que ponto casos como o de Maksimov terão influído para isso. O empreendedor de 54 anos decidiu conter suas críticas às autoridades. O que sugere que seus inimigos apelaram à polícia para convencê-lo a resolver uma disputa.

"Eu era um dos empresários na lista da Forbes e, agora, vou para a cadeia", disse. "É normal. Afinal, estamos na Rússia."

Os problemas de Maksimov começaram há três anos, quando ele processou Vladimir Lisin, magnata do aço, desencadeando a crise que o levou à prisão.

Os dois haviam concluído um acordo, que logo fracassou, segundo o qual Lisin adquiriria 50% mais uma ação da companhia de Maksimov, o Maxi Group. O Maxi, na época, fora avaliado em US$ 1,2 bilhão depois de saldadas as dívidas. A companhia de Lisin, a Novolipetsk, pagou adiantado a Maksimov US$ 317 milhões. O restante seria pago depois que uma empresa externa de auditoria avaliasse as dimensões do endividamento da companhia, no prazo de 90 dias.

Os executivos da Novolipetsk não quiseram pagar o que restava. Em uma entrevista em sua sede em Moscou, os advogados do Novolipetsk acusaram Maksimov de transferir grandes somas de dinheiro do Maxi Group para a conta corrente de sua namorada. Ele afirmou que comprara as ações que sua namorada, sua sócia no negócio, tinha em outras subsidiárias. Seja como for, as disputas seriam supostamente resolvidas por uma comissão de arbitragem internacional, segundo os termos do acordo.

Em fevereiro, Maksimov achou que estava perto de ganhar. Ele convocou uma entrevista coletiva no Marriott Hotel em Moscou. Com a imprensa, apareceram homens armados.

Formalmente, ele foi preso por acusações relacionadas ao pagamento feito à namorada, que havia sido repassado ao Maxi Group. Mas Maksimov afirma que o investigador também discutiu com ele a arbitragem com a Novolipetsk. Enquanto esperava o voo para uma prisão nos Urais, foi novamente pressionado para fazer um acordo com a Novolipetsk. Cinco dias depois, Maksimov foi solto sob fiança. Em março, uma comissão de arbitragem comercial internacional de Moscou concedeu-lhe uma indenização de US$ 287 milhões.

Ele colocou o que resta de sua riqueza numa holding na Grã-Bretanha. Apesar de o dinheiro dele ter saído da Rússia, não é certo que ele conseguirá fazer o mesmo. Agora, a polícia o investiga num caso separado de fraude. / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.