Maior ameaça à ofensiva está no Paquistão

A bactéria do antraz cada vez mais cruel, e talvez proveniente de um laboratório norte-americano, os bombardeios no Afeganistão imprecisos, pesados, que, às vezes, caem por acaso em asilos de velhos ou centros da Cruz Vermelha - decididamente, a campanha oriental dos americanos não é uma obra-prima. E outras ameaças proliferam. Em primeiro lugar, no Paquistão. Em Karachi, a enorme cidade de Karachi, uma nova e forte manifestação criticou os ataques aéreos. É uma notícia grave. Na coalizão formada por Bush e Powell, aliás não sem brio, o Paquistão é uma peça fundamental. Se essa peça não funciona, todo o plano é arruinado. Ora, esse país é próximo ao Afeganistão, tanto por suas fronteiras como pelo sentimento. Ele é muçulmano e, portanto, tem grupos islamitas ardentes. Mas, apesar disso, o presidente do Paquistão, o general Pervez Mousharraf - indignado com os atentados em Manhattan e, além disso, preocupado em voltar a agradar a comunidade internacional -, entrou na coalizão anti-Taleban, corajosamente, sem levar em conta a opinião pública de seu país. O que aconteceu após essa decisão audaciosa? Antes do dia 11 de setembro, o presidente Mousharraf era ignorado por todos os governantes dos países ocidentais (pois Mousharraf tornou-se presidente, há dois anos, após um golpe de Estado). Ora, desde que declarou fidelidade aos Estados Unidos, o general Mousharraf tornou-se "a coqueluche" dos chefes de Estado ocidentais. Fazem "fila" para encontrar Mousharraf: Tony Blair abriu o baile. Em seguida, Colin Powell. Depois, o ministro alemão das Relações Exteriores, Joschka Fisher, e o próprio primeiro-ministro, Gerhard Schröeder. Depois, no dia 25 de outubro, o príncipe Saoud Al, da Arábia Saudita, e o presidente turco, Ahmet Necdet Sezer. Muito bem: do ponto de vista diplomático, a operação é um sucesso, uma vitória. Infelizmente, à medida que o general Mousharraf se torna mais admirado e solicitado pelos países estrangeiros, cai sua popularidade em seu próprio país. Trata-se de uma derrota. Mesmo os "liberais", os "moderados" do Paquistão admitem sua cólera. Os "erros" dos bombardeios, a morte de inocentes, a visão dos feridos, o desespero dos afegãos, os poucos resultados obtidos pelos americanos, a perspectiva de uma guerra longa e atroz, tudo isto coloca a população contra Mousharraf. Alguns especialistas temem movimentos de ruas tão fortes que a polícia e o Exército paquistanês se curvariam ou passariam para a revolta (o Exército paquistanês, sobretudo a divisão dos Serviços Especiais, é em um grande número de casos, islamita radical). Outros temem um assassinato. No Egito, o presidente Anuar Sadat reconciliou-se com Israel no final da década de 1970. Conseqüência: Sadat foi assassinado no dia 6 de outubro de 1981 pelos islamitas radicais. É evidente que os ressentimentos contra Mousharraf estão especialmente vivos na etnia que, no Paquistão, corresponde à etnia afegã da qual saiu a loucura taleban. No Afeganistão, essa etnia tem o nome de pashtu. No Paquistão, são os pathat. O sinal dessa solidariedade é que podem ser observados, nas fronteiras do Afeganistão e do Paquistão, dois movimentos opostos: de Cabul ou de Kandahar saem milhares de refugiados afegãos aterrorizados - é de dar dó! Mas, no sentido contrário, há três mil jovens paquistaneses que se alistaram para combater junto aos talebans. Esperam o direito de passar com muita impaciência. Até aqui, Mousharraf conseguiu evitar o pior, mas cada nova jornada de bombardeios aumenta o perigo. Isolado de seu povo, confinado em suas audiências com diferentes governantes, fabulosos, mas estrangeiros, ocidentais (o que é pior) e até mesmo cristãos, embora o general Mousharraf tenha dado provas de uma bela coragem, começa a dar sinais de inquietação. Cada vez que pode fazê-lo, repete: "Fomos persuadidos de que a campanha dos americanos seria breve e que evitaria perdas de vidas de civis". É o que diz o general... Leia o especial

Agencia Estado,

26 Outubro 2001 | 18h57

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