Maior aposta contra Bin Laden são forças especiais

Longe das câmaras, sempre durante a noite com o menor ruído possível e a garantia de um resultado mortal, a ação terrestre das forças especiais dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha no Afeganistão é a forma de luta com mais chances de garantir uma vitória consistente contra o Taleban e a Al-Qaeda. A opinião é de dois oficiais americanos da primeira linha de reserva de duas dessas tropas, uma do Exército outra da Marinha, ouvidos pelo Estado. Um deles - ambos não podem ser identificados - sustenta que a guerra da Ásia Central reúne as características para emprego dos grupos de elite: terreno hostil, inimigo irregular, alvos pontuais e restritos. "É fácil perceber que o trabalho está sendo feito. Sem a designação dos objetivos a partir da superfície, as cartas de situação elaboradas com as imagens de reconhecimento aeroespacial não permitiriam 85% de êxitos no bombardeio", analisa um dos oficiais. Oficiosamente, o pessoal das SOF (Forças de Operações Especiais) chegou às montanhas afegãs há exatamente um mês, no dia 14 de setembro. "Esse é o padrão de deslocamento, 72 horas depois do início de qualquer crise. Foi assim no Kosovo. Somos os primeiros a chegar e os últimos a sair de um novo cenário quente", explica o outro militar. Os EUA mantém 46 mil homens e mulheres em 5 organizações conhecidas: Seal (Iniciais de Mar, Terra e Ar em inglês) que opera em grupos de fogo de 16 combatentes; Força Delta (todas as informações operacionais são sigilosas); Comando Especial da Força Aérea (dá apoio ar-superfície ou ar-ar às demais unidades); Ranger (especialistas em assalto noturno e ocupação de instalações estratégicas); e Boinas-Verdes (fazem a luta antiterror não convencional). Militares dos EUA revelaram que o modelo adotado no Afeganistão prevê um mix de forma a atender a três níveis de operações especiais: As missões irregulares admitidas abertamente pelo governo (episódio emblemático: a tentativa de seqüestro do general Noriega, no Panamá, em 1989). As missões clandestinas que o Pentágono só admitirá em caso extremo (exemplo: a participação na operação antiguerrilha em Honduras, em 1986). As missões totalmente encobertas, que serão negadas pelas autoridades em qualquer circunstância. Geralmente são entregues ao pessoal do Seal ou do Delta ( caso típico: a localização e morte, em 1997, na Colômbia, de um dos comandantes do Exército de Libertação Nacional, apontado como responsável pela ligação da guerrilha com o narcotráfico. O rebelde foi morto pela explosão de uma carga de C-4 aplicada em seu telefone celular). As equipes SOF estão se movimentando pelo Afeganistão a partir de bases de apoio fixadas com certeza no Usbequistão e talvez na fronteira com o Paquistão, com apoio do Special Air Service (SAS) britânico que leva a vantagem de contar em seu contingente com combatentes descendentes em segunda ou terceira geração de paquistaneses e indianos. Aproveitam a confusão criada pelas ondas de ataques aéreos dos EUA para cumprirem várias funções pré programadas. Prioritariamente devem estabelecer ligações sólidas com os líderes das milícias da Aliança do Norte, negociando o apoio armado dos EUA. Nessa fase da Operação Liberdade Duradoura, além de algum treinamento em planejamento e operações - principalmente as noturnas, com visores de intensificação de luz -, os especialistas estão tratando de montar uma rede segura de comunicações. Isso compreende a instalação de estações centrais e distribuição de rádios, independentes da rede própria das forças norte-americanas. Simultaneamente, equipes de cinco combatentes transformados em equipes de reconhecimento armado avançam em território inimigo para abastecer o Estado-Maior Conjunto de informações em tempo real a respeito da movimentação, condições e disposição das forças do Taleban. Agindo nesse formato e atitude, a SOF deve identificar os "alvos de oportunidade" (Oportunity Targets, OT), aqueles que surgem de repente, determinados pelo deslocamento da tropa inimiga. É a única maneira de se garantir que uma missão envolvendo um bombardeiro de B-1B de US$ 120 milhões, um míssil Tomahawk de US$ 1 milhão e US$ 250 mil em combustível será bem sucedida. A secreta Força Delta é responsável pelo estágio mais complexo e arriscado: a caça e assassinato dos líderes da Al-Qaeda de Osama Bin Laden, e, em caráter bem definido, também de certos comandantes do Exército do regime Taleban, como o egípcio Ayman Zawari, considerado um estrategista de grande competência. É uma tarefa difícil. Naturalmente há pouca informação referente ao paradeiro desse primeiro escalão do comando adversário. Os "supersoldados" devem levantar os dados de que necessitam para movimentar-se virtualmente a cada momento, e das mais variadas formas. "É um tipo de missão em que a tecnologia de ponta conta muito pouco. Vale mais ouvir o pastor que contará ter cedido leite a uns poucos homens furtivos, que viajavam em uma van. É assim, de migalha em migalha, que chegamos ao objetivo final", revela um oficial ligado ao Exército dos Estados Unidos, que espera, em todas as operações, "uma pequena e sangrenta batalha". A avaliação está referenciada por duas condições: a resistência dos seguidores de Bin Laden - pelo menos 150 acompanham o líder por toda parte - e dos milicianos do Taleban encarregados da guarda dos chefes; e a doutrina de máxima segurança prévia às tropas americanas, marcadas pela morte de 18 soldados em 1993 durante a fracassada tentativa de captura do ditador Mohamed Aidid, na Somália. Os homens e mulheres dos esquadrões das forças especiais devem garantir vantagem por meio de ataque pesado de cobertura com mísseis, foguetes e uma chuva de aço quente garantida por canhões de 20 mm e 30 mm, orgânicos dos helicópteros Apache e Cobra, que disparam milhares de tiros por minuto. No jargão das SOF, essa abordagem "é um exercício de engenharia civil: terraplenagem e pavimentação a quente". Leia o especial

Agencia Estado,

14 Outubro 2001 | 23h15

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