HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Maior cova coletiva do Haiti ganha vizinhança 

Pessoas que perderam tudo em Porto Príncipe erguem barracos com telhas de zinco ao lado de onde estão enterrados milhares sem identificação

Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2017 | 05h00

A inscrição que em crioulo significa Haiti nunca vai esquecer – 12 Janvye 2010 Ayiti Papbliye – recebe as poucas pessoas que visitam a cada dia o memorial em homenagem aos mortos do terremoto que matou cerca de 300 mil pessoas há 7 anos. A escolha do local, a 30 quilômetros de Porto Príncipe, não foi aleatória. Ali foi cavada a vala comum onde milhares de corpos foram enterrados sem identificação.

“Eram tantos cadáveres nas ruas que os caminhões do governo passavam recolhendo e levavam tudo para Saint Christophe, pois os cemitérios da cidade não davam conta”, explica Michelet Michaud, de 37 anos, que em 2004 deixou a faculdade de Relações Exteriores para servir como intérprete na Minustah, a missão de paz da ONU capitaneada pelo Brasil. Com enterros em sequência, famílias se juntavam para rápidas cerimônias. 

Com os corpos, foram chegando os desabrigados. Milhares de pessoas que haviam perdido tudo em Porto Príncipe invadiram o morro próximo ao local da vala e construíram pequenas casas com telhas de zinco. Elas não têm qualquer estrutura de energia elétrica, saneamento básico ou pavimentação.

Com um cesto de roupas na mão, Manese Charles foi uma das moradoras de Porto Príncipe que se mudaram para a região após a tragédia. O terremoto derrubou sua casa na capital e ela foi viver com filhos, irmão, cunhada e outras pessoas da família em Canaã, um dos bairros ocupados na região do memorial. Aos 40 anos, vive de vender frutas na rua, mas anda chateada porque há poucos dias foi assaltada. 

Além de falta de estrutura, a ocupação tem problemas de criminalidade, o que faz Manese e os vizinhos temerem pelo fim das ações operacionais da Minustah, marcada para a próxima quinta-feira. “Se a missão sair, não vai melhorar não”, resume. “Antes as gangues entravam nas casas das pessoas, matavam. Com as tropas ficaram com medo. Mas a polícia do Haiti não é a tropa. A polícia não tem capacidade de controlar os bandidos.”

Quem cuida do memorial criado em cima da vala comum é Valmyr Adlain Rosane. Sem uma perna, ele usa muletas para abrir o portão de ferro aos visitantes. E deixa claro logo na entrada que o governo mandou que limpasse o monumento e evitasse a bagunça de crianças ali, mas ele não recebe nada por isso. É uma dica para que os visitantes deem alguma gorjeta para entrar. 

A baixa quantidade de visitantes contrasta com a quantidade de crianças e jovens que se juntam do lado de fora quando algum estrangeiro aparece. Alguns falam palavras em português, como um adolescente que se identificou apenas como Patrica e disse que aprendeu o idioma ouvindo brasileiros. Morador da região, ele trabalha construindo casas no morro invadido após o terremoto e diz que a vida ali é muito dura. “Não como todos os dias.” 

No coração da cidade, um gramado verde é o que se vê no espaço antes ocupado pelo palácio presidencial, que ruiu após o tremor de 7 graus na escala Richter . Nos arredores, dezenas de pessoas ficam à espera de algum forasteiro para tentar conseguir algum dinheiro. Algumas arriscam palavras em português, outras tentam vender doces e pulseiras. Uma mulher com um bebê se aproxima de uma jornalista. Quer que ela leve sua criança. Fala palavras em crioulo. Um dos militares do grupo pede que a brasileira não pegue o bebê porque a haitiana o deixaria e sairia correndo. “Não somos diabos”, responde a mulher. 

Mais conteúdo sobre:
Haiti [América Central]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.