Fredy Builes|Reuters
Fredy Builes|Reuters

Maior desafio é regenerar jovens das Farc

Para analista, desarmamento dos guerrilheiros será decisivo no sucesso de acordo de paz

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2016 | 05h00

A integração da guerrilha será um dos principais desafios da Colômbia na consolidação da paz após o histórico acordo assinado em Havana. Segundo Rafael Duarte Villa, do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri-USP), muitos nasceram e cresceram na selva e não conhecem outro modo de vida a não ser a insurgência. “As Farc não são um grupo formado somente por recrutados”, disse. “São homens da guerra.”

Ao Estado, Villa disse que o acordo de cessar-fogo é um passo importante no processo de paz, mas sua implementação entra agora numa fase difícil: o desarmamento e a integração da tropa guerrilheira. “O fracasso ocorrido com o desmonte dos paramilitares deve servir de exemplo para o novo cenário.”

Para Villa, quando o ex-presidente Álvaro Uribe, hoje um opositor do plano de paz de Juan Manuel Santos, iniciou a desarticulação dos paramilitares que combatiam a guerrilha, houve muitos grupos radicais que formaram milícias criminosas em grandes centros urbanos. “Parte daqueles grupos paramilitares nunca teve vida social e vive até hoje no crime organizado.”

Para ele, a desarticulação de guerrilheiros pode provocar uma crise na segurança pública colombiana. “A Colômbia não é uma sociedade igualitária, com amplas condições econômicas e sociais que permitam uma integração fácil. Há um forte problema social pela frente.”

Villa lembrou ainda que “a maioria dos guerrilheiros irá para as cidades”, o que deve agravar problemas de moradia e emprego. Para o analista da USP, eles passarão por processo semelhante ao de soldados americanos do Vietnã, que tiveram dificuldade de adaptação.

“Passarão muitos anos até que consigam se integrar”, prevê o analista. Segundo ele, os colombianos sofrem com “um processo de desconfiança e ressentimentos”, porque o legado do longo conflito é de muitas vítimas de ambos os lados.

Outro ponto de pressão, segundo o professor, é a atuação da indústria da guerra. Ele acredita que comerciantes que lucraram com o conflito pressionarão para não perderem mercado. “Este é o desafio que o governo colombiano ainda não tratou”, disse. Para ele, a questão pode ser mantida sob controle por algum tempo porque o país terá de combater o crime organizado e outras guerrilhas, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) – pela mesma razão o mercado de armas e equipamentos não deve se reduzir nas zonas urbanas. “Com o fim dos cartéis, houve uma ‘democratização perversa’ da venda de drogas.”

Para Villa, o Brasil poderia ter participado mais do processo de paz, mas Bogotá não quis. “Primeiro porque a Colômbia não considera o Brasil um país estratégico nas suas relações. O país estratégico é os EUA”, disse. “Em segundo lugar, embora vizinha, as relações mais complexas de fronteiras da Colômbia não são com o Brasil, mas com Venezuela e Equador.” Por fim, Villa acredita que, no passado, o Brasil manteve posição favorável às Farc e criticou o Plano Colômbia, adotado em 1999. Bogotá, segundo Villa, considera o Brasil pouco sensível à segurança interna do país, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso até o de Dilma Rousseff.

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