REUTERS/John Vizcaino
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‘Maior desafio foi a desconfiança mútua’

Para político, que é autor do projeto de lei do plebiscito sobre o acordo de paz, população colombiana não tinha motivos para acreditar nas Farc e os guerrilheiros também estavam com dúvidas sobre as intenções do Estado

Entrevista com

Roy Barreras, senador colombiano

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2016 | 00h00

Durante os últimos meses de negociações entre a Colômbia e as Farc, um motivo de discordância era o mecanismo que deveria ser usado para referendar o acordo final. Diante do impasse, o senador Roy Barreras, que preside a Comissão de Paz do Congresso e integrava a delegação do governo nas discussões em Havana, escreveu o texto base do plebiscito. Em entrevista ao Estado, antes da assinatura do acordo final, o senador disse que o maior desafio durante o processo foi “a desconfiança mútua”. 

- O que fazia o senhor acreditar que esse processo daria certo?

A decisão do presidente (Juan Manuel) Santos, que já tinha a experiência de ter sido um ministro da Defesa muito bom, havia confrontado as Farc com eficácia e, pela primeira vez em 50 anos, conseguiu convidá-los (ao secretariado das Farc) para as conversas. A força dessa experiência me permitia, com credibilidade, estender as mãos da paz e manter-me fiel a essa aposta. O fato de ter permanecido firme na decisão de parar a guerra por meio do diálogo nos fez chegar aos acordos que temos agora.

- Qual foi o principal desafio para o governo?

A desconfiança mútua. Depois de meio século de ataques violentos contra as instituições, depois de tanta dor e crueldade derivadas da guerra, os colombianos têm uma grande desconfiança com relação às Farc. Do outro lado, a guerrilha também tem uma profunda desconfiança com relação ao Estado, porque em processos de paz do passado existia o pedido de que ela assinasse o acordo já desarmada. Por isso, o atual acordo de cessar-fogo bilateral garante a segurança para os guerrilheiros.

- Em algum momento o senhor pensou que seria impossível ter um cessar-fogo bilateral?

Em vários. Durante o processo, tivemos declarações fortes das Farc sobre as vítimas, um embate na questão de repará-las e reconhecer a existência delas. Em distintos momentos, o presidente estava correndo o risco de perder o processo (de paz). Estamos muito próximos do fim, mas não terminamos ainda. 

- Como foi a experiência de elaborar o projeto de lei do plebiscito?

Foi uma experiência curiosa, de certa maneira. Quando o presidente Santos decidiu que deveria haver um referendo popular, a Constituição colombiana previa vários mecanismos, mas o governo e as Farc não entravam em um acordo sobre qual deles deveria ser utilizado. E o tempo passava e eu tinha sempre a preocupação de acelerar o processo, por isso, de maneira autônoma, apresentei o projeto de lei em setembro do ano passado. Então apresentei algo que nunca havia ocorrido na Colômbia, já tivemos referendos e constituintes, mas nunca plebiscito. A proposta foi aprovada pelo Congresso e, no começo deste ano, na mesa de conversações em Havana, conseguimos convencer as Farc de que o mecanismo é indispensável para referendar o processo.

- O senhor acredita que a resistência das Farc com o mecanismo resulta da visão das pessoas sobre a guerrilha?

É provável. Para as Farc seria mais cômodo que o acordo de paz fosse um acordo autônomo, em vez de um acordo especial que precise passar pelo Congresso e pelos cidadãos, mas então não seria um acordo legítimo. O acordo de paz vai para o Congresso, para a Corte Constitucional e para os cidadãos colombianos, para que deem a última palavra.

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