Maior envio de remessas é trunfo contra escassez

Cubanos que sofrem com falta de artigos subsidiados pelo Estado esperam que ampliação de limite para dinheiro remetido dos EUA atenue problema

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2014 | 02h03

Ao quadruplicar o limite para remessas em dinheiro dos EUA para Cuba, o presidente americano, Barack Obama, tende a aliviar um dos principais problemas dos moradores da ilha, a compra dos itens que faltam na cesta básica fornecida pelo regime comunista.

Em 2013, o envio de dinheiro de americanos para Cuba representou uma injeção de US$ 3,5 bilhões, segundo o Havana Consulting Group. Deste montante, 54% chegam com passageiros que visitam a família em Cuba. O restante vai por banco ou pela internet.

Esperanza López, de 43 anos, conta com o dinheiro de parentes em Miami. Juntando a quantia à que seu marido recebe de um irmão que vive em Las Vegas, o casal consegue cerca de US$ 600 por ano.

A dona de casa exibe a caderneta em que os produtos distribuídos pelo governo são marcados para argumentar que o valor é insuficiente para sustentar a família, composta ainda por uma filha de dois anos. "Olha aqui, sabão e detergente não foram distribuídos este ano. E este mês só chegaram 2 quilos de arroz", afirma.

Para ela, a ampliação do limite trimestral de US$ 500 para US$ 2 mil enviados por família dos EUA, anunciada pelo governo americano na semana passada, pode permitir um socorro imediato. "Esperar que uma empresa se instale, empregue e isso se reverta em benefícios para todo mundo demora", pondera, referindo-se à perspectiva de investimentos de empresas americanas, outra promessa de Obama feita no discurso que definiu o restabelecimento de relações diplomáticas, na quarta-feira.

A grande mudança para Esperanza, entretanto, é a permissão para que pessoas que não são parentes façam o envio, algo proibido até agora. "Temos muitos amigos em Miami que poderão ajudar".

Mudanças. Cuba tem duas moedas que o governo pretende unificar no ano que vem. O peso conversível (CUC), atrelado ao dólar, é base para o turismo. O peso cubano (CUP) é usado pelos cubanos para comprar artigos subsidiados. Isso garante que os habitantes não passem fome, mas enfrentem filas para comprar uma pizza por US$ 0,50 ou uma fruta por US$ 0,01.

Desde que Raúl Castro assumiu o poder, em 2008, houve reformas econômicas que facilitaram a compra e venda de carros e casas, assim como a abertura de pequenas empresas, entre as quais estão os restaurantes familiares.

Os efeitos, entretanto, não atingiram a maioria. Veículos novos entraram, por exemplo, com preços que os colocaram praticamente nas mãos do Estado ou de escolhidos por ele. Um carro popular zero quilômetro custa mais de US$ 100 mil, enquanto o salário médio é de US$ 20.

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