Mohammed Abed/AFP
Mohammed Abed/AFP

Maior manifestação antigoverno da era Mubarak deixa 3 mortos no Egito

Assim como na Tunísia, ativistas egípcios usam Facebook e outras ferramentas da internet para organizar marchas pelas ruas do Cairo e protestar contra o desemprego e o regime repressivo do presidente, no poder há três décadas; Twitter é bloqueado

, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

CAIRO

Milhares de manifestantes entraram ontem em confronto com a tropa de choque da polícia egípcia no centro do Cairo. Três pessoas - dois manifestantes e um policial - morreram. Os distúrbios, batizados de "Dia da Fúria" por alguns ativistas na internet, são os mais graves da história recente do país e foram inspirados na "Revolução do Jasmim", que derrubou o presidente da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

No Egito, as três principais reivindicações são a suspensão da lei de emergência, que vigora permanentemente desde a morte do presidente Anwar Sadat, em 1981, a saída do ministro do Interior, Habib Adly, e a adoção de um limite de tempo para o mandato presidencial. Alguns também protestam contra o desemprego e a repressão do governo do presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.

Assim como na Tunísia, a internet era a principal ferramenta dos manifestantes. Foi usando a rede que os ativistas convocaram o "Dia da Fúria". Em resposta, o governo bloqueou o Twitter. Cerca de 90 mil pessoas confirmaram presença via Facebook, mas a multidão nas ruas da capital egípcia era bem menor. Estimativas apontam que 15 mil manifestantes compareceram. Por precaução, o governo destacou cerca de 20 mil homens para reprimir os protestos.

Violência. O "Dia da Fúria" começou de maneira pacífica, com uma marcha da Praça Tahrir, centro do Cairo, até o Parlamento. Mas, à medida que a manifestação cresceu, surgiram os primeiros episódios de violência. Ativistas jogaram pedras nos policiais, que responderam com jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo. Na Praça Tahrir, manifestantes cercaram 50 policiais, que só foram libertados depois de ser agredidos pela multidão. Em alguns pontos da capital, ativistas entraram em confronto direto contra os cassetetes da polícia. Imagens mostraram várias pessoas sangrando e há relatos de agressões contra jornalistas e fotógrafos.

Alguns manifestantes também protestaram diante da sede do Partido Nacional Democrático, de Mubarak, gritando "Aqui estão os ladrões". No fim da tarde, segundo testemunhas no Cairo, os manifestantes receberam apoio de restaurantes, que distribuíram comida. Outros distúrbios também foram registrados em Alexandria, no norte do país.

De madrugada, a polícia dispersou com violência os manifestantes da Praça Ramsés e várias pessoas foram presas. Durante todo o dia, o governo não emitiu nenhum comunicado sobre os protestos. À noite, o ministério do Interior emitiu um comunicado pedindo o fim das manifestações, que foram classificadas de "atos de provocação". "Alguns manifestantes jogaram pedras contra a polícia e depredaram instituições e propriedades do Estado", dizia o texto.

Mubarak está no poder desde a morte de Sadat (mais informações nesta página). Em tese, o Egito é uma democracia multipartidária, mas a oposição se queixa de fraudes generalizadas nas eleições. Na última corrida presidencial, em 2005, Mubarak, que está no quinto mandato, venceu com 88% dos votos e, atualmente, seu partido controla 80% do Parlamento.

Assim como a Tunísia, o Egito tem um governo secular. As semelhanças, porém, param por aí. A população egípcia é sete vezes maior e, para agravar o quadro, o governo de Mubarak enfrenta um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana.

Mantidos na ilegalidade - a Constituição proíbe partidos religiosos -, os fundamentalistas formam uma das principais forças políticas do país. Para os EUA, portanto, Mubarak é um importante aliado, não só por adotar uma posição moderada com relação a Israel, mas principalmente por manter o poder longe dos extremistas.

Isso explica a reação fria dos americanos. Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, se limitou ontem a pedir o fim da violência: "O governo egípcio está estável e busca maneiras de responder às demandas da população". / AP, AFP e REUTERS

PARA LEMBRAR

Presidente assumiu após morte de Sadat

Pelos serviços prestados na Guerra do Yom Kippur, em 1973, Hosni Mubarak, então comandante da Força Aérea, foi alçado à vice-presidência do Egito e tornou-se apadrinhado do presidente Anwar Sadat. Após a derrota para Israel, o Cairo alterou sua política externa e passou a negociar a paz com os israelenses, o que significou a sentença de morte do presidente. Em 1981, após o assassinato de Sadat por muçulmanos radicais, Mubarak era a opção mais óbvia para manter a estabilidade do Egito. Após assumir a presidência, ele decretou estado de emergência - que nunca foi revogado. Hoje, aos 82 anos e em meio a rumores de um câncer terminal, ele tenta emplacar o filho, Gamal, como sucessor nas eleições presidenciais, marcadas para setembro.

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