Maior medo era viver com a dúvida, diz filho de Vasconcellos

Filho de brasileiro morto no Iraque lembra último contato com o engenheiro e relata drama de conviver durante dois anos e meio com a incerteza do destino do pai

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

Formado em ciência da computação, Rodrigo Vasconcellos tinha no computador não só uma ferramenta de trabalho, mas a ponte com o pai, o engenheiro João José de Vasconcellos Jr., do outro lado do mundo. Na véspera do seqüestro no Iraque, Rodrigo recebeu o último contato do engenheiro pela internet e deu a ele sua última visão do Brasil. O filho virou a webcam para a janela, brindando o pai com uma bela imagem do pôr-do-sol na praia da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, cujo mar ele adorava. Quase dois anos e meio depois, o rapaz de 27 anos mostra os sinais de um amadurecimento forçado, que o levou a se tornar a referência da casa. "Costumo brincar que ganhei duas filhas, uma de 49 anos e outra de 24 e um filho de 18", diz, referindo-se à mãe, Tereza, e aos irmãos Tatiana e Gustavo. Foi seguindo a boa tradição da família mineira que ele não esqueceu das palavras do pai, que sempre o alertava para a necessidade de assumir a liderança da família, até então feliz e confortável, se houvesse a sua falta. É dessa forma que ele comemora a passagem serena do irmão pela pior fase da adolescência diante da ausência do pai. Foi também com a serenidade de quem teve de segurar as pontas durante todo esse tempo, que ele amparou a mãe e a avó, as mais fragilizadas da família. Como filho é que Rodrigo lamenta não poder cumprir as promessas que fez ao "papito" nos textos dedicados a João que postava num blog, como a de comemorar com um bom churrasco os 50 anos que o pai completaria dias após seu desaparecimento. Os textos acabaram servindo como terapia para suportar o silêncio, o ícone que nunca mais piscou on line, a webcam que não se moveu mais. Sem a tão aguardada volta que o blog preconizava, Rodrigo ainda não teve coragem de escrever. Mas respirou aliviado ao poder, finalmente, decretar a hora de virar a página de angústias e incertezas. Leia a íntegra da entrevista concedida pelo filho de Vasconcellos Jr ao Estadão: É diferente o sentimento de vocês ao realizar esta cerimônia tanto tempo depois do desaparecimento do seu pai? Acho que o tempo de certa forma nos ajudou a lidar com tudo isso. Se acontecesse logo no começo (o encontro do corpo e a certeza da morte), seria um impacto muito grande, principalmente para minha avó e para minha mãe. Ter levado um certo tempo ajudou a família a aceitar e, quando veio a notícia do corpo estar chegando, de certa forma também deu um alívio. Estávamos já numa situação de medo de o caso não ter solução, de nunca saber o que aconteceu. Querendo ou não, agora temos certeza do desfecho. Seria ainda mais difícil conviver com a dúvida? Sem dúvida, era o meu maior medo. Como foram estes dois anos e meio sem saber se ele estava vivo ou morto? Foi angustiante. Sempre a conversa freqüente da casa. Na mesa de almoço, tinha sempre esse assunto. Pelo menos duas ou três vezes por semana a gente conversa sobre isso. Não tem como fugir. A gente acorda e pensa: nossa, mais um dia sem saber. Em que momento você chegou à conclusão de que ele teria morrido? Depois de um ano e meio, quando a gente já tinha mais de um ano sem nem um boato positivo, confesso que comecei a perder as esperanças. Mas é lógico que sempre fica aquela vontade de ele voltar. De vez em quando você ainda pensava que ele poderia estar vivo em algum lugar? Com certeza, era o meu maior desejo. Nesse período, vocês receberam muitas informações que não se confirmaram. Alguma chegou a dar reais esperanças? Antes eram só boatos, muita informação desencontrada e pouco fato mesmo. A gente não tinha muita informação concreta. Foi complicado. Muita gente vinha com informações, mas ninguém conseguia provar. Acho que só agora conseguimos relaxar um pouco. Que avaliação você faz do trabalho do Itamaraty e da construtora nas buscas? O apoio do Itamaraty e da empresa foi excelente. Ajudaram-nos em todos os momentos. Celso Amorim fez um trabalho excepcional, sempre passando para a equipe dele que isso era prioridade máxima. Vimos até mesmo nesta sexta-feira isso, com a seriedade de todos os envolvidos. Só tenho a agradecer. Então não ficou nenhum ressentimento em relação ao governo brasileiro? Não. Acho que a atuação do Celso Amorim e do Itamaraty foi Excelente. O exame feito no corpo conseguiu comprovar a data da morte, se foi no momento do ataque ou depois? Não sei de detalhes do exame. A única coisa que sei é que foi feita por legistas kwuaitianos e dali veio o atestado de óbito. Não tenho muitas informações. Você gostaria de saber isso, saber exatamente quais foram as circunstâncias da morte? Não é o objetivo agora. Nosso objetivo era apenas saber o que aconteceu com ele. Acho que às vezes alguma informação a mais não vai trazer alívio nenhum para a família. Talvez o contrário, pode até trazer mais angústia. Acho que está sendo bom do jeito que está sendo, porque é um desfecho e tem como deixar isso para trás.

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