Kirill KUDRYAVTSEV/AFP
Kirill KUDRYAVTSEV/AFP

Maior opositor ao Kremlin volta à Rússia e é preso no aeroporto de Moscou

Após se recuperar de envenenamento na Alemanha, líder de oposição Alexei Nalvani retornava pela primeira vez para casa, onde era aguardado por milhares de simpatizantes 

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 15h46

BERLIM - O líder de oposição ao Kremlin Alexei Navalni foi preso assim que desembarcou em um aeroporto de Moscou neste domingo, 17. Ele retornava à Rússia pela primeira vez desde que foi supostamente envenenado em agosto e precisou ser tratado na Alemanha. Autoridades russas já haviam declarado que iriam prendê-lo assim que chegasse de Berlim por, segundo elas, violar as condições da suspensão de uma pena de 2014. 

Navalni foi detido no aeroporto de Sheremétievo quando passava pelo controle de passaportes, segundo jornalistas que estavam no local. Sua aeronave deveria pousar no Aeroporto de Vnukovo, também na capital, e onde cenentas de apoiadores o aguardavam, mas acabou desviada.

A polícia também fez várias detenções entre a multidão que aguardava o opositor no terminal, sob gritos de “A Rússia será livre!” e “Navalni! Navalni!” A ideia de desviar o voo foi um aparente esforço das autoridades para evitar que ele falasse com apoiadores ou jornalistas.

Um dos críticos russos mais proeminentes do presidente Vladimir Putin, Navalni foi levado de avião para Berlim para tratamento médico de emergência depois de ser envenenado aparentemente pelo agente nervoso Novichok, segundo mostraram testes alemães. 

“Este é o melhor momento dos últimos cinco meses”, disse ele aos repórteres, após embarcar no avião na capital alemã com destino a Moscou. "Eu me sinto ótimo. Finalmente, estou voltando para minha cidade natal.”

Nalvani anunciou sua decisão de deixar a Alemanha na quarta-feira, 13, e um dia depois o serviço penitenciário de Moscou anunciou que faria de tudo para prendê-lo assim que ele retornasse, acusando-o de desrespeitar os termos de uma pena suspensa por peculato, um caso de 2014 que ele diz ter sido inventado.

O piloto, de 44 anos, embarcou no último minuto em Berlim após ser levado de carro até a pista, evitando se encontrar com outros passageiros. Ele havia minimizado o risco de retornar para casa e disse acreditar que não seria preso e era inocente. 

“Do que eu preciso ter medo? Que coisa ruim pode acontecer comigo na Rússia?”, indagou. “Sinto-me um cidadão russo que tem todo o direito de regressar”, acrescentou. Ele estava acompanhado por sua mulher e porta-voz, Yulia. Navalni viajou em um voo operado pela companhia aérea russa Pobeda, de propriedade da estatal Aeroflot. 

O líder de oposição afirma esperar ter sucesso nas eleições parlamentares de setembro, mas também enfrenta graves problemas em três outros processos criminais, todos eles relacionados à motivação política.

Problema para o Kremlin 

Seu retorno representa um problema para o Kremlin: prendê-lo pode desencadear protestos e ações punitivas por parte dos países europeus e EUA ao transformá-lo em um mártir político. Não fazer nada pode fazer o governo parecer  fraco aos olhos da linha dura do Kremlin.

O político de oposição, que diz estar quase totalmente recuperado, afirma que Putin está por trás de seu envenenamento. O Kremlin nega envolvimento, afirma não ter visto nenhuma evidência de que ele foi envenenado e que estava livre para retornar à Rússia.

 

Navalni diz que o Kremlin tem medo dele. O Kremlin, que se refere a ele apenas como o “paciente de Berlim”, não leva a informação a sério. Os aliados de Putin apontam pesquisas de opinião que mostram que o líder russo é muito mais popular do que Navalni, a quem chamam de blogueiro em vez de político.

Antes de domingo, ao menos 2 mil pessoas usaram uma página do Facebook para organizar a ida ao aeroporto para receber o líder o opositor - outras 6.000 manifestando o mesmo interesse. Ativistas pró-Kremlin também se programaram para aparecer no local. 

A promotoria de Moscou, que afirma ter alertado oficialmente 15 organizadores pró-Navalni, disse que o evento era ilegal porque não foi sancionado pelas autoridades.

Citando as restrições da covid-19, o aeroporto disse que não permitiria a entrada da imprensa./AFP, AP e REUTERS 

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