Maior problema de Romney é parecer autêntico ao eleitor

Análise: Dan Balz / The Washington Post

O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2012 | 03h06

Ao longo da atual campanha primária, muitos eleitores republicanos têm manifestado profundas reservas a respeito de Mitt Romney, o candidato favorito do partido. Eles questionam sua autenticidade, não sabem se podem confiar nele e se perguntam quem ele é na realidade.

No debate de domingo, em New Hampshire, é possível que o ex-governador de Massachusetts tenha reforçado tais dúvidas. Um exemplo disso foi quando o ex-senador Rick Santorum o acusou de preferir se esconder a enfrentar uma difícil campanha pela reeleição em Massachusetts, em 2006.

Romney, que resolveu se apresentar como o cidadão que é político, empresário e politicamente independente para distinguir-se do presidente Barack Obama, protestou. Disse que concorreu ao cargo de governador de Massachusetts com o propósito de fazer mudanças, e, depois de quatro anos, tinha conseguido.

Santorum estava incrédulo. Newt Gingrich, que até então queria ser o adversário simpático, disse a Romney que parasse com aquelas "bobagens piegas". O ex-presidente da Câmara ressaltou que o rival optara por concorrer à presidência em 2008 e por isso desistira da reeleição.

"O senhor não teve esse interlúdio de cidadania quando ficou pensando no que fazer", comentou Gingrich. "O senhor sempre concorreu à presidência enquanto era governador. Estava sempre viajando pelo país. Voltou imediatamente para a política. Seja sincero com o povo americano."

Nada sugere que o efeito cumulativo dos dois debates, no final de semana, poderá afetar a candidatura de Romney. No domingo, ele tratou com eficiência de algumas questões, particularmente uma a respeito dos direitos dos gays, mostrando que sabe reagir rapidamente quando desafiado. Sua campanha tem muito dinheiro e é conduzida de maneira inteligente.

Ele tem a sorte de ter opositores relativamente fracos. Com poucas exceções, tem se mostrado o candidato mais consistente nos debates e na campanha. É o único que, desde o início, conseguiu projetar uma mensagem geral para as eleições. Uma grande vitória em New Hampshire também permitiria prever o sucesso num ambiente mais provocador como o da Carolina do Sul.

Por isso, muitos republicanos consideram Romney o candidato com maiores perspectivas de vitória nas eleições gerais. No entanto, as dúvidas permanecem, e Romney não conseguiu dirimir a impressão de que ele é um homem privilegiado, que talvez não compreenda os dramas dos americanos comuns.

Em um debate anterior, Romney desafiou o governador do Texas, Rick Perry, a apostar US$ 10 mil. No domingo, ele citou o próprio pai. "Nunca se envolva em política se não precisar ganhar uma eleição para pagar uma hipoteca", teria dito o ex-governador, em uma declaração que parece desqualificar os americanos de classe média para concorrer à presidência.

São pequenas coisas, mas pequenas coisas também são importantes. Em duas discussões mediadas por Peter Hart, para o Annenberg Public Policy Center da Universidade de Pensilvânia, os eleitores deram a Romney votos discrepantes. Eles o consideram um homem de grandes princípios morais, dedicado à família e com experiência no setor privado, mas também o veem como uma pessoa que não tem nada a ver com o americano médio por causa de sua riqueza e formação.

Os assessores de Obama avaliam Romney sob dois prismas. Eles o consideram um adversário formidável, que poderá contestar a política econômica do presidente com maior eficácia do que qualquer outro dos pré-candidatos republicanos. Por outro lado, para os democratas, sua carreira no setor privado faz com que ele seja visto com ressalva por eleitores independentes da classe média, que em novembro decidirão a eleição.

Os assessores de Romney veem a coisa de maneira diferente. Eles não acreditam que esta eleição tenha a ver com empatia, mas com uma liderança efetiva e resultados concretos. Eles consideram Obama igualmente vulnerável nesse aspecto, e acreditam que as eventuais limitações de Romney serão anuladas pela situação econômica e pela possibilidade de o presidente ter as respostas para os problemas do país.

Agora, todos estão concentrados na primária republicana. Mas, em meses, as atenções se voltarão para a escolha efetiva nas eleições gerais. Se indicado, Romney ainda terá de responder a essas questões. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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