Maior proteção para os materiais radioativos

Aumentam os casos de tráfico de produtos que podem ser usados em uma bomba e a cúpula de Seul é a oportunidade de impedir isso

YUKIA, AMANO, THE WASHINGTON POST, É DIRETOR-GERAL DA AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA , YUKIA, AMANO, THE WASHINGTON POST, É DIRETOR-GERAL DA AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA , O Estado de S.Paulo

27 de março de 2012 | 07h41

Artigo

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tem conhecimento de mais de 2 mil casos confirmados de tráfico ilegal e outras atividades não autorizadas envolvendo material radioativo e nuclear nos últimos 18 anos. Numa operação realizada na Moldávia no ano passado, a polícia apreendeu uma quantidade de urânio altamente enriquecido - material usado para produção da bomba atômica - com um indivíduo que estava tentando vendê-lo.

Muitos casos não envolvem tráfico de material nuclear, mas material radioativo utilizado em hospitais, fábricas e outros locais em todo o mundo, que geralmente não são tão protegidos quanto as instalações nucleares.

Para ajudar a evitar as mortes, ferimentos, o pânico, a contaminação generalizada e importantes distúrbios sociais e econômicos que podem ocorrer se terroristas sabotarem um reator nuclear ou detonarem uma "bomba suja" (produzida com material radioativo), é vital que os líderes mundiais reunidos esta semana na Cúpula de Segurança Nuclear em Seul decidam de comum acordo reforçar as medidas para impedir que material nuclear e radioativo caia em mãos erradas.

Houve avanços desde que o presidente americano, Barack Obama, hospedou a primeira cúpula, dois anos atrás. Mas em alguns países, materiais nucleares e radioativos ainda continuam sem a proteção adequada. Existe um risco real de terroristas adquirirem e utilizarem este tipo de material. Essa ameaça global exige uma resposta global. Os criminosos não respeitam fronteiras. Tampouco a radiação iônica.

É urgente que todos os países ratifiquem a Emenda à Convenção sobre Proteção Física de Materiais Nucleares, um instrumento crucial contra o terrorismo. Uma proteção física eficaz dos materiais é a primeira linha de defesa contra atos insidiosos.

Sabotagem. Essa emenda obriga legalmente os países a protegerem material nuclear que está sendo usado ou é armazenado e não apenas quando está sendo transportado - como estabelece a convenção atual - e exige que as usinas nucleares sejam protegidas contra atos de sabotagem que possam ter consequências similares a um acidente nuclear.

Um acordo já havia sido formalizado em 2005, mas não entrou em vigor porque não foi ratificado pelo número necessário de países. Mais de 20 nações representadas na cúpula de Seul não adotaram essa medida indispensável. Isso precisa mudar.

Antigamente acreditava-se que materiais radiológicos e nucleares tinham autoproteção, pois eram perigosos demais para serem manipulados sem treinamento e equipamentos especializados. Mas indivíduos e grupos envolveram-se no tráfico ilegal desses materiais apesar dos riscos à própria saúde e à de outros. O fato de os contrabandistas na Moldávia tentarem evitar que o material fosse detectado usando um contêiner blindado indica o nível preocupante de sofisticação. Felizmente, as autoridades da Moldávia tinham os recursos necessários para detectar o material. O urânio foi apreendido e prisões foram feitas.

Um dos piores incidentes no mundo ocorreu em 1987, quando material radioativo de uma clínica abandonada em Goiânia, Brasil, provocou a morte de 4 pessoas, contaminou 300, e levou mais de 100 mil a passar por exames radiológicos.

Esse incidente envolveu uma liberação inesperada de radioatividade, mas é o melhor indicador do que pode ocorrer em larga escala caso terroristas decidam detonar uma bomba suja numa grande cidade ou num evento público importante.

Não desejo ser alarmista. Avanços continuam sendo feitos com o objetivo de proteger material vulnerável e controlar fronteiras de forma mais eficaz. Mas é preciso fazer mais. Se a Emenda à Convenção sobre Proteção Física de Materiais Nucleares não for aprovada e aplicada, será uma grave falha na estrutura da segurança global. Insisto aos líderes do mundo que solucionem esta questão em sua reunião em Seul. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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