Maioria dos analistas errará nas previsões

História dos EUA mostra que os oráculos da política poucas vezes se dão bem; o motivo: as principais variáveis são imprevisíveis

JOHN , PITNEY, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DO , CLAREMONT MCKENNA COLLEGE, JOHN , PITNEY, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DO , CLAREMONT MCKENNA COLLEGE, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h03

Análise

Daqui até o dia da posse presidencial nos EUA, 21 de janeiro, virão à tona diversas previsões sobre o que deve acontecer nos próximos quatro anos no país. A maioria desses prognósticos se revelará equivocada. Como sempre ocorre, o destino do governo será decidido por elementos que ninguém tem como prever.

O futuro é território do desconhecido. Em 1912, Woodrow Wilson centrou sua campanha presidencial em questões nacionais e, no ano seguinte, seu discurso de posse não fazia nem menção às palavras "guerra" e "militares". Ao assumir a presidência, Wilson nunca ouvira falar num rapaz cujo nome era Gavrilo Princip. Em 1914, esse sérvio obscuro assassinou o arquiduque austríaco Franz Ferdinand, desencadeando a sucessão de acontecimentos que resultou na 1.ª Guerra.

Em tempos mais recentes, Jimmy Carter foi outro presidente que se elegeu com uma campanha voltada para assuntos internos. Em 1976, com exceção de algumas críticas pontuais à amplitude das vendas de armas para o Irã, ele pouco falou sobre o país persa.

No primeiro ano de seu mandato, Carter afirmou: "Graças à grande liderança do xá, o Irã é uma ilha de estabilidade numa das áreas mais turbulentas do mundo". Poucos anos depois, a ilha de estabilidade foi engolida por um tsunami. Os revolucionários iranianos depuseram o xá e fizeram reféns americanos, detonando uma crise que se tornaria uma obsessão para os EUA e um desastre político para o então presidente.

Pouco menos de um ano depois, outro país provocou novo abalo. Carter e Gerald Ford ignoraram por completo o Afeganistão durante a disputa eleitoral de 1976. "Afeganistanismo" era uma gíria usada por jornalistas americanos quando queriam censurar um colega que se preocupava em demasia com os problemas de países insignificantes, ao mesmo tempo em que evitava as questões nacionais mais candentes.

Em dezembro de 1979, invadido pela União Soviética, o Afeganistão de repente passou a ser um país importante. Carter, que chegara a criticar o que lhe parecia ser um "temor exagerado do comunismo", afirmou: "Mais do que qualquer outra das ações soviéticas desde que assumi a presidência, (a invasão ao Afeganistão) mudou radicalmente a avaliação que faço de quais são os objetivos últimos do governo da URSS".

Os insurgentes apoiados pela CIA acabaram expulsando os soviéticos de sua terras e o Afeganistão tornou a cair no esquecimento.

'País humilde'. Nos debates entre George W. Bush e Al Gore durante a eleição de 2000, em nenhum momento se falou no país. E o que mais impressiona em retrospecto é que a questão do terrorismo mereceu apenas menções ligeiras dos então candidatos. Em vez de discutir sobre qual dos dois adotaria as medidas mais duras contra os inimigos de Washington, Bush disse - e o Gore concordou - que os EUA precisavam ser antes de tudo um país forte, mas "humilde".

Tudo mudou em 11 de setembro de 2011. A guerra contra o terror substituiu o conservadorismo compassivo do presidente e ninguém mais ouviu falar de sua preocupação em apresentar os EUA no exterior como um "país humilde".

Também a economia pode se mostrar imprevisível. Nos anos 90, a inovação tecnológica gerou um boom econômico e, por esse motivo, o déficit público teve uma redução mais acelerada do que Bill Clinton podia esperar ao assumir a presidência, em 1993. Dezesseis anos mais tarde, Barack Obama sabia desde o início que a economia americana estava em crise. Apesar disso, sua equipe de transição previu que o desemprego estaria abaixo de 6% no fim de 2012. Nem é preciso dizer que a recuperação econômica foi mais lenta do que anteviam os especialistas.

O inesperado às vezes é de ordem pessoal. Abraham Lincoln, que antes de se tornar presidente nunca comandara nada de maior envergadura do que o seu pequeno escritório de advocacia, devia parecer um diletante perto de Jefferson Davis, o presidente dos confederados. Formado na Academia de West Point, Davis fora senador, general e secretário da Guerra do governo americano. O próprio secretário de Estado de Lincoln se ofereceu para assumir algumas das responsabilidades daquele presidente tão café com leite. A grandeza de Lincoln só se revelou com a Guerra Civil.

Vez por outra, as revelações acontecem no segundo mandato. Bill Clinton já tinha fama de mulherengo, mas o escândalo protagonizado por Monica Lewinsky foi algo que passou da conta. Poucos imaginavam que Clinton seria tão imprudente a ponto de ter relações sexuais com uma subordinada. E ninguém poderia ter previsto a tenacidade e a astúcia política de que ele fez uso para sobreviver a um episódio que teria destruído outros presidentes.

O vencedor da eleição de 2012 enfrentará solavancos externos e internos. Talvez tenha até surpresas espirituais. Assim, em 21 de janeiro, ao pôr sua mão sobre a Bíblia para fazer seu juramento de posse, faria bem em dar uma olhada em Eclesiastes 8,7: "Visto que ninguém conhece o futuro, quem lhe poderá dizer o que vai acontecer?". / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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