Maioria dos europeus é hostil à entrada da Turquia na UE

Visto pela quase totalidade da população turca como uma espécie de panacéia, o projeto para o ingresso da Turquia na União Européia (UE) é, no entanto, encarado com hostilidade pela maioria dos europeus, conforme as últimas pesquisas de opinião pública. Apenas os jovens na faixa de 18-24 anos de idade, numa proporção de 70%, declaram-se favoráveis à proposição, sobre a qual os dirigentes dos 15 países membros da UE estão ainda longe de ter uma posição comum. Mas, esta semana, no encontro de cúpula de Copenhague, eles deverão decidir, em princípio, se as negociações com Ancara começam no final de 2004 ou em julho do 2005. Isto depende, até lá, da observância pela Turquia dos critérios democráticos estipulados pela comissão executiva da UE para uma adesão que, se confirmada, não ocorrerá antes de 2013. Nesta perspectiva, os turcos terão de empreender esforços, nos próximos anos, para apaziguar os receios do europeu médio, que alimenta uma imagem pouco lisonjeira da Turquia por diferentes razões, segundo as pesquisas. A principal delas é a de que, com mais de 60 milhões de habitantes e uma taxa de natalidade elevada, a Turquia "invadirá" a União Européia com legiões de imigrantes. A preocupação a propósito se torna ainda mais aguda quando se sabe que 95% da população turca, concentrada na parte asiática do país (esta equivale à quase totalidade do território nacional), dispõe de uma renda per capita bem inferior à dos países do Leste, também candidatos à UE. Além disso, apesar das exortações de Bruxelas, Ancara até hoje não conseguiu deter o tráfico de mão de obra oriunda de outros países asiáticos, tráfico promovido por máfias poderosas. Cerca de 200 mil pessoas transitam anualmente, de modo irregular, pelo território turco. Outro motivo ponderável para a oposição dos europeus reside no temor de ser a União Européia "contaminada", por intermédio da Turquia, pelo fundamentalismo islâmico. O fato de o novo governo turco, saído das eleições legislativas do mês passado, pertencer a um partido islâmico aumenta a inquietação dos europeus, mesmo que o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan se proclame arraigado à pratica de um Islã moderado e democrático. Porém, o dado recorrente para os europeus é o de que os muçulmanos constituem 99% da população turca e podem engendrar, em seu seio, as mais diversas expressões do islamismo violento. Os europeus consideram igualmente relevante a verificação de que a Turquia não observa plenamente os direitos do homem: a tortura continua sendo praticada com freqüência nas delegacias de polícia; os presos políticos são submetidos a um regime de isolamento insuportável nas prisões; os direitos culturais e políticos das minorias, sobretudo dos curdos, embora reconhecidos, até hoje não foram aplicados. De resto, como indicam as pesquisas, as marcas de uma história antiga de seis séculos de conflitos entre o Império Otomano e a Europa, ainda que de forma difusa e vacilante, subsistem no imaginário coletivo dos europeus.

Agencia Estado,

10 Dezembro 2002 | 14h45

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