REUTERS/Jason Lee
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Maioria dos novos bebês chineses já tem irmão

Fim da política de filho único na China surtiu efeito e 52% dos 11,6 milhões recém-nascidos são segundos filhos. Analistas afirmam que mudança inda não vai impedir rápido envelhecimento chinês

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2017 | 05h00

Em oito meses de 2017 nasceram 11,6 milhões de bebês na China. Mais da metade deles tem o que nenhuma criança no país pôde ter nos últimos 38 anos: um irmão. As estatísticas divulgadas ontem pela Comissão Nacional de Saúde e Planejamento familiar da China mostram que 52% dos recém-nascidos de janeiro a agosto deste ano são o segundo filho – algo inédito.

China anuncia fim da política do filho único

Desde que a China instituiu a política de filho único, em 1979, os casais foram proibidos de ter outro filho. Houve nascimentos com este perfil, mas eram crianças consideradas párias: não eram registradas, não tinham acesso à escola, serviços médicos, e sequer podiam usar os trens. A regra, profundamente impopular, também levou a uma população idosa em expansão, um dos piores desequilíbrios de gênero no mundo e abortos seletivos de fetos femininos. Com a perspectiva de um rápido envelhecimento da população e da escassez de mão de obra, o Partido Comunista chinês decidiu primeiro afrouxar as normas. Em 2015, a aboliu de vez.

O número de nascimentos na China sempre se manteve entre 15 milhões a 16 milhões por ano, desde os anos 2000. No ano passado, com o fim oficial da política de filho único, esse número aumentou 11,5%, para 18,5 milhões, o maior número de nascimentos do século 21. Se compararmos os nascimentos de 2017 com os do mesmo período do ano passado, houve um aumento de 800 mil nascimentos. Ou seja, não há um boom populacional no país. 

O mais impressionante foi o crescimento no número de segundos filhos. Em 2016, foram 45% dos nascidos. Este ano, 52%. Antes do relaxamento das normas, em 2015, esse número não passava de 25%. Trata-se de um aumento substancial, mas ainda está longe do que o governo chinês quer. A expectativa era de que tivessem nascido 20 milhões de crianças no ano passado e neste. Os demógrafos do governo esperam que a liberação aumente em ao menos 30 milhões a população ativa nacional até 2050.

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A principal razão para o fim da política do filho único foi a perspectiva de rápido envelhecimento. A população economicamente ativa da China está encolhendo. Hoje, há seis pessoas em idade ativa para uma em idade de aposentadoria. Em 2040, serão dois para um – algo muito similar ao que aconteceu com o Japão em 40 anos. Pelas contas do governo, em 2016 a China tinha 222 milhões de idosos. Estimativas apontam que esse total pode chegar a 450 milhões em 2050 – quase um terço da população.

A maioria dos demógrafos e economistas diz que o custo e a dificuldade de criar filhos serão um empecilho à tentativa do Partido Comunista chinês de modificar os efeitos do envelhecimento rápido. “A estrutura demográfica da China foi destruída pela política de filho único”, afirma o demógrafo Yi Fuxian, professor da Universidade de Wisconsin e um dos principais especialistas em demografia chinesa. “A maioria dos casais chineses se acostumou à política de filho único, e será impossível reestruturar a sociedade chinesa em uma geração.”

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Outros demógrafos acreditam que o crescimento dos últimos dois anos pode ser um pico provocado pelo fim da política de filho único. Seria como uma barragem em um rio. Com a barreira demolida, o fluxo seria intenso nos primeiros anos. Depois dela, o fluxo de água através da barragem voltará ao que era antes, a menos que haja uma mudança na taxa de fertilidade da China, ou seja, a menos que a mulher, em idade fértil, queira ter mais filhos.

Até agora, isso não parece estar acontecendo. É verdade que o aumento de curto prazo nos nascimentos pode esconder mudanças de longo prazo, mas há pouco sinal de uma mudança generalizada em busca de famílias maiores. Mais de 30 anos de propaganda implacável persuadiram os chineses de que “um é o suficiente”. Em uma pesquisa do governo em 2015, três quartos dos casais disseram que não queriam um segundo filho.

Além disso, o número de mulheres em idade fértil, de 15 a 49 anos, deverá cair em 5 milhões por ano até 2021. No curto prazo, se a taxa de fertilidade ficar igual, haverá menos mães para ter filhos. Para mudar o cenário de rápido envelhecimento, o Partido Comunista chinês vai precisar de mais do que apenas a mudança em sua política de filhos únicos. / RODRIGO TURRER, COM EFE e AP

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