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Maioria dos refugiados no Brasil é de venezuelanos

A grande maioria dos deslocados (68%) em todo o mundo chega de apenas cinco países: Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Mianmar e Venezuela

Roberta Jansen / Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2020 | 15h35

Boa parte das fronteiras em todo o mundo está fechada por causa da emergência sanitária da covid-19. Mas cerca de 80 milhões de pessoas estão vivendo fora de suas casas, devido a conflitos, perseguições ou violência generalizada. São pouco mais de 30 milhões de refugiados (ou solicitantes da condição de refugiado) e mais de 45 milhões deslocados internamente em seus próprios países.

A grande maioria dos deslocados (68%) em todo o mundo chega de apenas cinco países: Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Mianmar e Venezuela. Justamente da Venezuela vêm quase que praticamente todos os refugiados (e solicitantes da condição de refugiado) e os que obtiveram visto de residência temporária que vivem no Brasil, cerca de 260 mil pessoas. 

“O Brasil recebe refugiados há décadas, vindos de Colômbia, Angola, Haiti, entre outros países. Mas os números sempre foram baixos”, explicou o representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, o equatoriano José Egas. “Nos últimos anos, no entanto, o número de solicitantes tem aumentado muito. Desde 2016, quase 600 mil venezuelanos entraram no Brasil. Cerca de 260 mil permanecem no País, enquanto os demais voltaram a seu país ou atravessaram o Brasil e foram para outros países”.

Parte desses venezuelanos ainda vive em Roraima, porta de entrada ao País. Mas a grande maioria já está distribuída por 600 municípios, em praticamente todos os Estados. Segundo Egas, o Brasil não tem problemas para absorver esse número de refugiados, até porque, a cada ano, mais de 300 mil brasileiros deixam o País para viver em outros países.

“Em cidades como São Paulo, por exemplo, duas ou três mil pessoas a mais não faz diferença, até porque eles não estão competindo por empregos com a população brasileira, estão dispostos a trabalhar no que o mercado ofereça e, grande parte, acaba empreendendo.”

É o caso do colombiano Jair Abril Rojas, de 41 anos, dono do restaurante Macondo Raízes Colombianas, uma referência à cidade de Cem Anos de Solidão, do escritor Gabriel Garcia Márquez, em São Paulo. Formado em engenharia mecatrônica (mecânica, elétrica e eletrônica), Rojas sempre gostou de cozinhar e acabou aceitando um convite para trabalhar em um restaurante no Brasil para escapar da violência das Farc e de outros grupos paramilitares. Pouco tempo depois resolveu abrir o seu próprio restaurante. Atualmente emprega seis refugiados venezuelanos.

“Procuro devolver o que o País me ofereceu”, explica ele, casado há quatro anos com uma brasileira.

A culinária tem sido um dos pilares de inserção no mercado de trabalho da população refugiada. Para comemorar seus 70 anos de existência, a Acnur está lançando um e-book gratuito com receitas de refugiados da Colômbia, Síria e Venezuela. Ao todo são sete receitas de pratos típicos desses países, como arepas e patacones. A receita de Rojas é uma sobrebarriga a la criolla, uma espécie de cozido. O e-book está  disponível no link acnur.org.br/pratodomundo.

“Um prato típico de um país ou região guarda, dentro de si, anos de história, descobertas, valores e memórias afetivas”, diz Jose Egas. “A culinária é uma valiosa e deliciosa porta de entrada para outras culturas. Para muitas dessas pessoas que deixaram tudo para trás escapar de guerras, conflitos, violência e perseguições, a gastronomia, além de ser um elo importante de ligação com suas culturas, é uma fonte de renda e de autonomia.”

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