Maioria vê no PC o garantidor da estabilidade chinesa

Incapaz de encontrar emprego num escritório, Gao Zengli mantém sua família dirigindo um apertado táxi 16 horas por dia, sete dias por semana, em Pequim - um trabalho tedioso que raramente produz mais do que 800 iuans (US$ 100) por mês. "Táxis demais, pessoas de menos", explicou.Esta semana foi ainda pior: ruas foram fechadas no centro da cidade devido ao Congresso do Partido Comunista, diminuindo o número de passageiros. Mas não espere que Gao acuse o partido por suas dificuldades.Como muitas pessoas entrevistadas na capital esta semana, Gao diz que apóia o partido como garantidor da estabilidade na China, a maior preocupação da maioria dos chineses depois de meio século de turbulências políticas e econômicas."A estabilidade é mais importante do que qualquer outra coisa", estimou Gao, desviando-se de uma onda de bicicletas, pedestres e outros veículos nas estreitas ruas a leste da Cidade Proibida, onde viviam os antigos imperadores chineses.Cinquenta e três anos depois de tomar o poder numa guerra civil, os comunistas da China parecem contar com uma sólida lealdade política por parte dos chineses comuns. O apoio desafia até reclamações contra a opressora pobreza no campo, desemprego e incertezas nas cidades e uma corrupção epidêmica entre altas autoridades."Desemprego, educação, bem-estar social, diferença de rendas, corrupção... A China tem problemas demais", disse uma estudante de arte da Universidade de Pequim, Li.Perguntada se achava que o partido estava à altura do desafio, ela pareceu surpreendida, primeiro, e levou alguns segundos para responder."Claro que sim. Confiamos em que eles farão a coisa certa. Eles já fizeram muito", afirmou.Numa pesquisa nacional realizada em 1993 na China por Shi Tianjin, um cientista político da Universidade Duke, na Carolina do Norte, 94% dos entrevistados disseram concordar com a afirmação: "Devemos confiar e obedecer o governo, porque em última análise ele serve a nossos interesses".Shi informou que dados de uma pesquisa semelhante realizada este ano ainda estavam sendo processados, mas que o nível de apoio parecia continuar o mesmo.Nào que os chineses tenham muitas opções. Apesar de a China ter oito outros partidos políticos legais, eles desfrutam apenas de um papel consultivo e "apóiam a liderança política do Partido Comunista Chinês(PCC)", segundo a linha oficial de governança chinesa. O maior, a Liga Democrática da China, conta com 139.500 membros; os comunistas têm 66 milhões.O partido pôs fim à última grande pressão por reformas políticas ao enviar o Exército para esmagar uma manifestação democrática de estudantes em 1989. Todas tentativas posteriores de organizações políticas independentes estão sendo tratadas com repressão e prisões.E, apesar de estar menos envolvido no cotidiano do que anteriormente, a presença do partido continua sendo avassaladora.Os chineses recebem sua propaganda na escola primária, onde a maioria pertence aos Jovens Pioneiros do partido. Todos estudantes aprendem a cantar a música, "Sem o Partido Comunista, Não Poderia Haver uma Nova China".O partido mantém células na maioria dos escritórios e fábricas. Ser membro do partido é considerado essencial para impulsionar carreiras - especialmente agora, com o partido pretendendo abrir suas portas para empreendedores privados.E o apoio se mantém apesar de dúvidas ou antipatias em relação a altos líderes e a percepção generalizada de corrupção. Petroleiros estatais demitidos protestaram no começo do ano almadiçoando o partido, chamando-o de podre, mas apenas chocalhavam a cabeça quando perguntados quem iria substituí-lo."Na verdade não importa para nós quem está no poder, porque o que queremos basicamente é que eles não agitem as coisas, que mantenham a estabilidade", disse o taxista Gao. Ele "não sabe muito" sobre o vice-presidente Hu Jintao, o favorito para substituir Jiang Zemin como o próximo líder da China.A estudante de artes Li acredita que a juventude de Hu é uma vantagem. Aos 59 anos, Hu é uma década mais novo do que a maioria dos líderes que estão se aposentando. "Ele vai ser muito melhor no exame dos novos problemas, e na manutenção das mudanças", disse.O novo líderHu Jintao, amante de literatura e do pingue-pongue, nascido em 1942 como filho de uma família de comerciantes em Anhui, uma região pobre do centro da China, estudou na Faculdade de Hidráulica da Politécnica de Tsinghua, onde foi aluno do velho líder comunista de linha conservadora Song Ping; mais tarde, Jintao freqüentou a escola do Partido Comunista, após a revolução de Deng Xiaoping. Em 1982, tornou-se membro suplente do Comitê Central do partido e foi durante três anos secretário da Liga da Juventude, que era então controlada pelo reformista Hu Yaobang - único líder chinês admirado pelos intelectuais, cuja morte em 1989 desencadeou as manifestações violentamente reprimidas em 4 de junho do mesmo ano em Tiananmen (Praça da Paz Celestial).Em 1985, Hu se tornou secretário do comitê do partido na região de Guizhou, uma das mais pobres do oeste do país, e três anos depois ocupou esse cargo no Tibete - onde não deixou boas lembranças. Ali, Hu decidiu impor a lei marcial em 1989, após as manifestações antichinesas, que terminaram com uma repressão injustificada.Alegando "motivos de saúde", os últimos anos do secretário para o Tibete foram passados quase sempre em Pequim, onde Deng Xiaoping encontrou nele a encarnação de um líder para a China: politicamente duro, economicamente aberto, com ares de tecnocrata. Em 1992, Deng, já cansado de um Jiang Zemin demasiado tímido nas reformas e muito burocrata, elegeu-o como o "coração" da quarta geração de dirigentes da China comunista (a primeira foi a de Mao, a segunda de Deng, a terceira de Jiang). Hu se tornou, assim, o mais jovem membro do comitê permanente do Politburo e da secretaria. Quando morreu Deng, sua vontade não foi esquecida: em 1998, Hu foi eleito vice-chefe de Estado e, um ano depois, vice-presidente da Comissão Central militar. Analistas políticos chineses asseguram que Hu tem dois pontos a seu favor: sempre se ocupou de regiões pobres e não pertence à "banda de Xangai" que Deng impôs no governo. Hu Jintao é casado com Liu Yongqing, a quem conheceu durante os anos de universidade, e com quem tem dois filhos.

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