Mais atenção às crianças

Elas se tornaram absolutamente incontornáveis nos cruzamentos das grandes artérias tanto em Beirute como noutras cidades do Líbano. Esperando o aparecimento das luzes vermelhas, ou aproveitando as paradas do trânsito provocadas pelos engarrafamentos, nuvens de crianças esfarrapadas partem ao assalto dos motoristas, implorando uma esmola ou propondo a venda de goma de mascar, barras de chocolate e outros produtos baratos; outras limpam com um pano imundo os para-brisas dos carros na esperança de umas moedas.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h04

O que antes era um fenômeno raríssimo adquiriu proporções alarmantes, com o afluxo ao solo libanês de aproximadamente 1,3 milhão de refugiados sírios fugindo da guerra civil, a grande maioria vivendo em tendas em condições de higiene lamentáveis. Esta questão foi alvo recente de um relatório consternador preparado pela Organização Internacional do Trabalho, o Fundo da ONU para a Infância (Unicef), a organização Save the Children e o ministério libanês do Trabalho.

Esse documento avaliou em ao menos 1.500 o número de crianças largadas nas selvas de asfalto, mas diversas organizações não governamentais libanesas calculam sua quantidade no triplo desta cifra. Dessas crianças, 73% são sírias e o restante é constituído por libaneses saídos de famílias indigentes e de campos de refugiados palestinos. Muitas dessas crianças dormem em imóveis em ruínas ou canteiros de obras, mas mesmo as que se beneficiam de alojamentos relativamente aceitáveis sofrem com a promiscuidade. Com frequência ficam expostas a agressões sexuais; pior, às vezes são forçadas a se prostituir ou a vender drogas na vizinhança das escolas.

Para a Unicef em Beirute, estas infelizes crianças carecem da menor proteção adulta, de orientação, de nutrição e de amor. Mas aos olhos das autoridades locais a situação é ainda mais inquietante, pois comporta graves riscos à segurança do país. Estas crianças de rua, segundo o ministério libanês do Trabalho, são verdadeiras bombas-relógio, pois representam um terreno fértil para a doutrinação e o recrutamento de futuros terroristas.

No momento em que o Oriente Médio se vê presa dos delírios assassinos do extremismo religioso é, de fato, na idade mais tenra que o veneno do culto da violência e do sacrifício impregna mais facilmente e mais profundamente os cérebros. Nos vídeos de propaganda que o Estado Islâmico espalha pela internet, podem-se ver meninos vestidos inteiramente de preto treinando o manejo de armas automáticas. Mas se pode ver também, na TV do Hezbollah, partido xiita armado e financiado pelo Irã, meninos absolutamente parecidos recitando: "Quando eu crescer, quero ser mártir..."

Recentemente, esta extrema vulnerabilidade própria da infância passou a preocupar as hierarquias religiosas muçulmanas. É na escola que começa a luta contra o terrorismo e impõe-se uma reforma da educação para conter a onda de radicalismo, foi o que decidiram ulemás muçulmanos do mundo inteiro reunidos em seminário durante três dias na cidade santa de Meca, Arábia Saudita. Eles preconizaram uma revisão das mensagens religiosas dos programas escolares no sentido de uma abordagem mais moderada do ensino religioso. Na abertura da conferência, o xeque da Universidade Al-Azhar do Cairo havia dado o tom ao deplorar tendências excessivas decorrentes de uma má interpretação dos preceitos corânicos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Issa Goraieb é jornalista do 'L'Orient-le Jour', de Beirute, e colunista do 'Estado' 

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