Mais cheiro de pólvora no ar

Ecos do período que antecedeu guerra do Iraque são inconfundíveis, mesmo sem certeza sobre objetivos do Irã

É JORNALISTA, SCOTT, SHANE, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA, SCOTT, SHANE, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2012 | 03h02

Os EUA sustentaram até agora aquela que é - de acordo com determinados critérios - sua guerra mais prolongada, com mais de 6.300 soldados americanos mortos e 46 mil feridos no Iraque e no Afeganistão, além de um custo estimado em US$ 3 trilhões. As guerras duraram muito mais do que o previsto, com resultados decepcionantes.

Então, por que já podemos sentir no ar um novo odor de pólvora? Os debates a respeito de um possível conflito envolvendo o programa nuclear do Irã alcançaram um tom estridente nas últimas semanas, com Israel intensificando as ameaças de um possível ataque, a oratória dos políticos americanos tornando-se mais belicosa e o Irã respondendo em geral num tom desafiador. Enquanto Israel e Irã trocam acusações e suspeitas de armar complôs assassinos, alguns analistas enxergam o perigo de precipitar uma guerra que inevitavelmente envolveria os EUA.

Os ecos do período que antecedeu a guerra do Iraque, em 2003, são inconfundíveis, e acendem um debate já conhecido a respeito da possibilidade de a imprensa estar exagerando ao relatar os avanços do Irã na construção da bomba. Entretanto, há uma diferença considerável: diferentemente de 2003, quando o governo Bush retratava o Iraque como uma ameaça iminente, os representantes do governo Obama e os profissionais dos serviços de informações parecem ansiosos por acalmar a retórica febril e agressiva.

Recentemente, o general Martin Dempsey, chefe das Forças Armadas americanas, disse à CNN que os EUA alertaram Israel para o fato de que a decisão de atacar neste momento teria como resultado uma "desestabilização", acrescentando que o Irã ainda não decidiu se construirá uma arma.

Graham Allison, um dos principais especialistas em estratégia nuclear da Universidade Harvard, comparou a evolução do conflito em torno do programa nuclear iraniano a uma "versão em câmera lenta da crise dos mísseis de Cuba", na qual ambas partes dispõem de informações pouco claras e os ânimos estão exacerbados. "Observando Irã, Israel e EUA, podemos perceber que eles avançam lenta porém inexoravelmente para uma colisão", disse ele.

Outra diferença fundamental em relação ao debate antes da guerra em 2003 é o papel central de Israel, que considera a possibilidade da construção de uma arma nuclear iraniana uma ameaça à sua própria existência e advertiu que em breve o Irã terá construído instalações nucleares muito abaixo da superfície, que não poderão ser alcançadas pelos bombardeiros.

A posição de Israel encontrou um ambiente politicamente favorável nos EUA. Com a notável exceção do deputado Ron Paul, do Texas, os candidatos republicanos à presidência disputaram espaço fazendo declarações em que ameaçavam o Irã e definiam-se como protetores de Israel.

Apesar de uma década de guerra, a maioria dos americanos parece apoiar o espírito marcial dos políticos. Numa pesquisa de opinião realizada este mês pelo Pew Research Center, 58% dos entrevistados disseram que os EUA deveriam usar força militar, se necessário, para evitar que o Irã desenvolva armas nucleares. Somente 30% dos participantes foram contrários à ideia. "Isso me parece curioso", disse Richard K. Betts, da Universidade Columbia, que estuda ameaças à segurança desde a Guerra Fria. "Depois de sofrer tantos golpes no Iraque e no Afeganistão, seria de se imaginar que houvesse uma razão instintiva sugerindo a contenção dos ânimos."

Micah Zenko, que estuda a prevenção de conflitos no Conselho das Relações Exteriores, enxerga um padrão: "Sempre existe a crença de que a próxima guerra terá resultado melhor do que a última". Diante de um desafio à segurança, tanto políticos quanto o povo "desejam 'fazer alguma coisa'", disse Zenko. "E não há nada tão capaz de 'fazer alguma coisa' quanto o poderio militar."

São as principais forças do establishment militar e de espionagem que buscam um contraponto à linguagem dos políticos quanto ao programa nuclear iraniano. Em audiência da semana passada, o senador republicano Lindsey Graham questionou James R. Clapper Jr., diretor da Inteligência Nacional dos EUA, se ele tinha dúvidas quanto às intenções iranianas de fabricar a arma atômica. "Tenho sim", respondeu Clapper. "Há certas coisas que eles ainda não fizeram e coisas que não fazem há algum tempo", acrescentou, referindo-se a etapas da preparação de um dispositivo nuclear.

Peter Feaver, da Universidade Duke, que estuda a opinião pública em relação à guerra e trabalhou no governo de George W. Bush, disse que a política do governo Obama está agora "exatamente no ponto médio da opinião pública americana em relação ao Irã" - ou seja, assumindo uma linha dura contra um Irã armado com bombas nucleares, mas opondo-se a medidas militares no presente. Feaver alerta que, com a aproximação das eleições de novembro, a retórica belicosa deve aumentar. "Este é o perigo habitual de se debater crises de política externa numa campanha eleitoral", disse ele. "Na tentativa de explicar uma posição complexa, acaba-se transmitindo a impressão de algo completamente vago." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E AUGUSTO CALIL

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