Adam Ferguson/The New York Times
Adam Ferguson/The New York Times

Mais crianças morrem no Afeganistão em função de explosivos abandonados, diz ONU

Relatório da ONU afirma que a morte de civis continua a crescer de forma constante nos últimos anos; em 2016, 3.498 civis foram mortos, um aumento de 3% em relação ao ano anterior

The New York Times, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 15h46

CABUL, AFEGANISTÃO  – Meses após o combate intenso entre o governo afegão e a milícia Taleban ter arrefecido nos arredores de Kunduz, a família de Hajji Habib Rahmani decidiu prosseguir com um casamento adiado.

Em meio às festividades, Abdul Basit, uma das crianças que brincavam atrás da casa, achou uma granada não deflagrada, que acabou explodindo. Basit, de 14 anos, e o irmão Haroon, de 8, foram mortos, e outras 12 crianças, com idades entre 7 e 15 anos, ficaram feridas.

A granada fora "lançada de um helicóptero durante o combate e não havia explodido", diz Rahmani, tio dos dois irmãos.

No dia 6 de fevereiro, a Missão da Organização das Nações Unidas no Afeganistão (Unama) informou que 2016 fora outro ano de recorde de mortes civis no país, e expressou preocupação especial com o salto de 65% no número de crianças mortas ou feridas por explosivos que sobraram da luta que se espalhou por áreas civis densamente povoadas.

O relatório da Unama afirma que a morte de civis continua a crescer de forma constante nos últimos anos. Em 2016, 3.498 civis foram mortos e 7.920 ficaram feridos – um aumento de 3% em relação ao ano anterior, assegura o relatório.

"Estou profundamente entristecido por divulgar outro ano de crescimento das mortes de civis – outro recorde histórico do número de baixas civis", afirmou Tadamichi Yamamoto, representante especial da ONU para o Afeganistão e chefe da Unama, durante coletiva de imprensa em Cabul, a capital afegã. "A morte e a mutilação de civis afegãos é extremamente angustiante e, em grande medida, prevenível."

De acordo com o relatório, a Unama documentou "números recordes de baixas civis em função de confrontos no solo, suicídio, ataques complexos e explosivos remanescentes da guerra", em 2016. O relatório também afirma que as mortes provocadas por operações aéreas foram as mais elevadas desde que a missão começou a registrá-las sistematicamente em 2009, dobrando de tamanho na comparação com 2015.

O Afeganistão ainda precisa se livrar do que resta das centenas de milhares de minas e explosivos empregados há década, que remetem à guerra de 1979-89 com a União Soviética e dos combates subsequentes envolvendo facções. Os explosivos recentes ceifam vidas diariamente.

Enquanto o conflito restringe os movimentos das equipes de desativação de minas, os civis são mortos e mutilados por bombas caseiras plantadas pelos insurgentes, bem como por material que não explodiu e foi abandonado pelas forças da coalização ao redor das bases que abandonaram.

E, agora, mais crianças estão morrendo pouco tempo depois que as batalhas em seus bairros chegaram ao fim, já que nenhum dos combatentes se preocupa em se livrar dos explosivos restantes, como pregam as convenções internacionais.

Um total de 61% das baixas civis são atribuídas pelo que a Unama chama de "elementos contrários ao governo", principalmente o Taleban. Mas as mortes de civis causadas por membros locais do grupo Estado Islâmico cresceram dez vezes na comparação com 2015, sendo que 899 foram reivindicadas pelo EI em 2016.

De acordo com o relatório, as forças a favor do governo causaram 24% das mortes civis, em uma alta significativa na comparação com 2015.

A missão da ONU estava especialmente preocupada com o aumento de 24% na morte de crianças em comparação com 2015, com 3.512 episódios, em 2016, provocando 923 mortes e deixando 2.589 feridos. Mais da metade das baixas infantis ocorreram durante confrontos em terra.

O Afeganistão realizou com sucesso um dos maiores esforços mundiais de retirada de minas ao longo de várias décadas, removendo quase 2 milhões de artefatos de material explosivo, mais de 700 mil minas antipessoais e mais de 29 mil minas antitanques, segundo o Serviço de Ação Contra Minas da ONU. A iniciativa resultou em uma redução na ordem de 65% nas baixas provocadas por minas e restos explosivos de guerra desde 2001.

Nos últimos anos, porém, à medida que a coalizão liderada pelos Estados Unidos fechava bases antes da retirada do país, mais baixas foram relatadas em função da explosão de material bélico em áreas que serviram para a prática de tiro e depois se viram abandonadas pelas forças da coalizão.

De 2009 a 2015, a ONU registrou 138 mortes relacionadas a acidentes com restos explosivos dentro ou ao redor de instalações utilizadas pela coalizão internacional, e, segundo a organização, 75 dessas vítimas eram crianças.

Uma operação de limpeza para começar a se livrar dos explosivos foi lançada em 2014 para liberar dezenas desses locais.

Segundo a ONU, muitas das mortes do ano passado envolvendo crianças e material bélico intacto foram causadas por novos artefatos explosivos abandonados após combates recentes.

"A minha equipe registra a localização de cada uma dessas detonações, e a tendência que documentamos foi de correlação direta entre baixas provocadas por material bélico explodido e as áreas onde aconteceram os combates mais pesados", afirma Danielle Bell, diretora da unidade de direitos humanos da Unama. "A maioria das baixas foi fruto de novos materiais bélicos intactos do conflito presente."

A ONU pede para o governo afegão obedecer às regras internacionais que exigem a limpeza de explosivos após uma batalha. Há mais de 15 anos em guerra, o Afeganistão assinou somente há pouco tempo a convenção que estabelece a limpeza, mas ainda não a colocou em prática.

 

 

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