AFP PHOTO / FADEL SENNA
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Mais de 1 mil crianças estão separadas de seus pais em Mossul, segundo Unicef

Jovens que conseguiram fugir do domínio do Estado Islâmico ficam expostos a transtornos psicológicos graves pois se sentem culpados por seus pais terem ficado para trás

O Estado de S.Paulo

18 Julho 2017 | 11h12

DEBAGA, IRAQUE - Adel, de 15 anos, está há nove meses sem ver seus pais em um campo de deslocados perto de Debaga, nos arredores de Mossul. Não teve outra escolha a não ser escapar do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

"O caminho era longo, caminhamos toda a noite, por cerca de 14 horas", lembra o adolescente que chegou ao Curdistão iraquiano depois de fugir da cidade de Hawija, controlada pelos extremistas, ao sul de Mossul.

"Claro que eu sinto falta da minha família. Nove meses é muito tempo", afirma Adel, que voltou para a escola. "Os professores nos tratam bem. Aqui agora é como minha casa.”

Os combates em Mossul causaram a fuga de centenas de milhares de civis. Atualmente, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 1 mil menores de 18 anos seguem separados de seus pais.

Um dos seus irmãos e alguns primos de Adel se juntaram a ele. A ONG Terre des Hommes Itália abriga 17 adolescentes. No local, eles aprendem inglês, informática e educação física.

Os meninos brincam em duas mesas de pebolim e em uma de tênis de mesa vestindo camisas de times de futebol e com cortes de cabelo da moda.

Sem perder o celular de vista, alguns adolescentes se acomodam em colchões no dormitório coletivo adjacente, enquanto a televisão transmite uma estridente música árabe. Na cozinha, três adolescentes aprendem a fazer pão e ajudam a preparar o almoço.

Os pais de Adel deixaram Hawija seis meses depois dele e seguiram em direção ao campo de deslocados da Província de Kirkuk. "O único meio de comunicação é o telefone e, às vezes, o Facebook", diz o adolescente. "Quando tiverem passado as provas, vou me encontrar com eles.”

Segundo o Unicef, em Mossul há mais de 1 mil crianças "separadas, ou desacompanhadas". "Separadas significa que estão com parentes, mas sem os pais. Desacompanhadas, que estão sozinhas", explica o órgão.

"Conheci um garoto de 7 anos que sofreu graves ferimentos na mão esquerda nos combates. Estava muito chateado, não falava e, mesmo quando demos uma pequena bola para que pudesse brincar, ele não a tocou", relata Maulid Warfa, responsável local do Unicef, em um comunicado.

Transtornos

Segundo o coordenador do centro Terre des Hommes, Abdelwahed Abdallah, crianças e adolescentes estão expostos a transtornos psicológicos graves. "Sofrem de estresse pós-traumático, déficit de atenção, transtornos do sono causados pela ansiedade", diz ele, acrescentando que "alguns sentem culpa, porque escaparam do EI, mas sua família, não".

Em alguns casos, os jovens também precisam reaprender os princípios básicos de convivência com as meninas, ou mesmo que música não é "haram", ou seja, proibido pela religião.

Ahmed, de 20 anos, refugiou-se em outro campo de deslocados em Debaga, com seus sete irmãos e irmãs pequenas. Uma delas tem dois anos de idade. Há quase sete meses, ele deixou Hawija, onde seus pais ficaram.

"Nós conversamos por telefone a cada dois ou três dias. Não muito, apenas cinco minutos", diz Ahmed. "Se encontrarem o telefone deles, podem matá-los", explica seu irmão Abdullah, de 15 anos, referindo-se aos extremistas. / AFP

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