Mais de 2 mil presos políticos vivem em condições desumanas em Mianmar

Nenhum dos presos pôde participar das últimas eleições, segundo Associação de Assistência aos Presos Políticos

Efe

13 de novembro de 2010 | 14h15

BANGCOC - Quase 2.200 presos políticos vivem em condições desumanas nas prisões de Mianmar e não puderam votar nas eleições de domingo passado, apesar dos apelos da comunidade internacional para que fossem libertados.

 

 

O regime birmanês dirigido pelo general septuagenário Than Shwe classifica os presos como delinquentes comuns e não respeita os seus direitos. A nova lei eleitoral, por exemplo, proibiu que militassem em partidos e concorressem às eleições do último dia 7.

 

 

A Associação de Assistência aos Presos Políticos (AAPP) de Mianmar tem uma lista com 2.193 nomes, dos quais 256 são monges budistas e 176 são mulheres, entre elas a líder opositora Aung San Suu Kyi, que teve a libertação autorizada pelo regime para a sexta-feira.

 

 

Suu Kyi, de 65 anos, viveu 15 dos últimos 21 anos encerrada em sua velha casa em Yangun, sem acesso a telefone, internet e com as visitas controladas.

 

 

A Nobel da Paz foi a única presa política a qual o regime ensaiou uma possibilidade de permitir votar, mas ela preferiu manter o boicote às eleições que, na sua opinião, perpetuarão os generais no poder em vez de trazer a tão aguardada democracia ao país submetido à ditadura desde 1962.

 

 

Suas condições "privilegiadas" são almejadas por réus confinados em prisões, como Hso Ten, condenado a 106 anos, ou Bo Min Yu Ko, que cumpre uma sentença de 104 anos.

 

 

"O tratamento que recebem viola o direito à vida, à dignidade e à saúde. A tortura é endêmica nas prisões e nos centros de interrogação em Mianmar", afirma a AAPP no último relatório que enviou à Comissão de Direitos Humanos da ONU.

 

 

Segundo dados das Nações Unidas, Mianmar conta com 44 prisões, sendo que 12 delas não contam com médicos, e 50 campos de trabalhos forçados, alguns sem ambulatório.

 

 

O destino mais temido pelos presos políticos é a sórdida penitenciária de Insein, construída nos arredores de Yangun na época do Império Britânico.

 

 

Ali os detidos vivem amontoados em minúsculas celas e são obrigados a conviver com seus próprios excrementos, em condições "mil vezes piores do que as do Bangcoc Hilton", o lendário presídio da Tailândia, segundo um holandês que passou sete anos em Insein por comprar uma máquina de fax não registrada.

 

 

Ko Aung, preso durante dez anos nesta penitenciária e que agora vive no exílio tailandês, ficou "horrorizado pelo terrível cheiro" e lembra que em vez de banheiro, tinham "um cubo cheio de excrementos humanos e infestado de insetos".

 

 

Guardas corruptos fazem vista grossa ao tráfico de drogas e os viciados reutilizam suas seringas, contribuindo para propagar a aids, uma das doenças mais transmitidas na penitenciária ao lado da disenteria, decorrente do valor nutritivo nulo das refeições oferecidas.

 

 

Treinados pelos serviços secretos da China, Cingapura e Israel, os agentes da inteligência militar birmanesa são ainda especialistas em obter informações dos presos, sobre os quais praticam técnicas como a privação de comida e sono, descargas elétricas nos genitais e todo tipo de mutilações físicas.

 

 

"Insein não é só uma prisão, é o símbolo do aparelho de repressão política em Mianmar", afirma a organização britânica "The Burma Campaign".

 

 

Entre os 2.193 presos políticos que a Junta Militar não reconhece como tal há ainda 12 membros da dissolvida Liga Nacional para a Democracia, o partido de Suu Kyi que venceu as eleições realizadas em 1990 e cujos resultados a Junta Militar jamais acatou.

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