Essa Ahmed / AFP
Essa Ahmed / AFP

Mais de 5 milhões de crianças estão ameaçadas pela fome no Iêmen

País vive uma escalada no conflito local e vê um aumento nos preços dos alimentos e combustíveis

O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 11h29

SANAA - Mais de cinco milhões de crianças estão ameaçadas pela fome no Iêmen, indicou nesta quarta-feira, 19, a ONG Save the Children, enquanto o conflito se agrava e os preços dos alimentos e dos combustíveis aumentam.

Em um relatório, a organização britânica advertiu para o risco "de uma fome sem precedentes" no país que vive a pior crise humanitária do mundo, segundo a ONU.

O governo iemenita, com apoio da Arábia Saudita, combate os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, em uma guerra que já causou a morte de 2,2 mil crianças, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A retomada, na segunda-feira, de uma ofensiva das forças pró-governo no porto estratégico de Hodeida - principal ponto de entrada para as importações e a assistência internacional - coloca em risco o acesso à ajuda humanitária e já tem um impacto econômico sobre os civis, apontam especialistas.

De acordo com o Escritório para a Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), o preço dos alimentos aumentou 68% desde 2015, quando uma coalizão liderada pela Arábia Saudita entrou na guerra em apoio ao governo para combater os houthis que controlam vastos territórios, incluindo a capital do país, Sanaa, e o porto de Hodeida.

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O OCHA afirma que o custo dos produtos de uma cesta básica aumentou 35%, enquanto os preços da gasolina, diesel e gás de cozinha aumentaram mais de 25% desde novembro. O Programa Alimentar Mundial (PAM) adverte que, além dos combates e dos ataques aéreos, a comida é agora "uma arma de guerra" no Iêmen.

Batalha de Hodeida

A interrupção do fornecimento de alimentos através do porto de Hodeida, no Mar Vermelho, "colocaria as vidas de centenas de milhares de crianças em perigo imediato, enquanto empurra milhões para a fome", denunciou a Save the Children.

Os confrontos mortais recomeçaram em torno da cidade portuária depois de fracassadas negociações no início deste mês em Genebra. As Nações Unidas alertaram que qualquer grande conflito em Hodeida poderia acabar com a distribuição de alimentos para oito milhões de iemenitas que dependem dela para sobreviver.

A cada 20 crianças com menos de cinco anos, ao menos uma sofre de desnutrição aguda grave na cidade, de acordo com o Unicef.

A Arábia Saudita e seus aliados acusam os rebeldes de contrabandearem armas do Irã por Hodeida e impuseram um bloqueio quase total ao porto. Os houthis e o Irã negam essas acusações.

"Milhões de crianças não sabem quando a próxima refeição virá", lamentou Helle Thorning-Schmidt, diretora da Save the Children. "Em um hospital que visitei no norte do Iêmen, os bebês estavam muito fracos para chorar, seus corpos estavam exaustos pela fome.”

Segundo a ONU, três em cada quatro iemenitas precisam de ajuda atualmente, sobretudo, alimentar, e o país está ameaçado por uma terceira onda de cólera. Desde março de 2015, 10 mil pessoas foram mortas, em sua maioria civis, e mais de 56 mil foram feridas no conflito.

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Em um relatório publicado no dia 4 de setembro, a organização Norwegian Refugee Council havia ressaltado que tais balanços não incluíam as consequências econômicas da guerra. "Este caos econômico tem o potencial de matar muito mais iemenitas do que a violência", escreveu o diretor da ONG no Iêmen, Mohamed Abdi. / AFP

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