Brynn Anderson/AP
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Mais de 7 milhões de jovens já votaram nos EUA, uma vantagem para Joe Biden

Segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard, 63% dos americanos entre 18 e 29 anos afirmaram que vão às urnas neste ano

Levy Teles e Rodrigo Sampaio, Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 18h12

A eleição presidencial americana deste ano será a segunda da vida de Ralph Fontaine, de 25 anos. A motivação do jovem, que trabalha como consultor de startups em Nova York, para ir votar no dia 3 de novembro será a mesma que o fez ir às urnas em 2016: impedir que Donald Trump vença. “Ambos os candidatos não são os melhores, mas os seus ideais de Biden e os democratas alinham com os meus", afirma. 

Segundo uma pesquisa de intenção de voto realizada pela Universidade de Harvard, 63% dos jovens com idade entre 18 e 29 anos afirmaram que vão participar da eleição deste ano. O número é significativamente maior do que os 48,4% de quatro anos atrás, quando a participação havia sido a maior desde 1984, o primeiro ano da contagem.

A um dia de uma das eleições mais importantes dos últimos anos nos EUA, cerca de 7 milhões de eleitores com menos de 30 anos já votaram  — sendo mais da metade entre os 14 Estados-chave — de acordo com o centro de pesquisa CIRCLE, da Universidade de Tufts, em Massachusetts. Na última vez em que os americanos escolheram seu presidente, o número de pessoas com essa faixa etária que haviam votado de forma antecipada foi de aproximadamente 2 milhões. 

No Texas, mais de 1 milhão de jovens votaram antecipadamente. Antes mesmo do dia marcado para a eleição, o número já se aproxima do 1,2 milhão de eleitores com menos de 30 que participaram do pleito no Estado em 2016. 

“Eu não tenho filiação política, mas após a eleição de Donald Trump eu senti que precisava aprender e ensinar outras pessoas sobre política”, diz Fontaine, que se autodeclara “centrista” e afirma estar descontente com o modelo bipartidário americano.

Carlos Poggio, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), aponta os protestos e a tensão racial vivida nos EUA nos últimos meses como potenciais fatores para a maior participação dos jovens nesta eleição, relembrando o incentivo de atletas da NBA, constantemente engajados com o movimento negro, para seus fãs irem às urnas.

“O ativismo social é um tema de grande mobilização entre os mais novos, principalmente em universidades”, afirma. “O jovem que passa o dia no Twitter está o tempo inteiro recebendo informação política. Isso pode ter ativado o dever cívico deste grupo para ir votar.”

Questões sociais, desigualdade econômica, coronavírus e o meioambiente são os principais motores políticos de Fontaine. “Acredito que o racismo alcançou outro nível nos EUA”, diz. 

É possível afirmar que a eleição de Trump despertou o interesse por política em uma parcela considerável da juventude americana. Segundo a pesquisa divulgada por Harvard no segundo trimestre deste ano, 43% dos jovens que se identificam como democratas afirmaram estar mais ativos politicamente após a votação de 2016, o que ocorre com 35% dos republicanos. 

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“Em 2018, durante as eleições legislativas, houve uma campanha muito forte para os jovens irem votar, o que ocasionou um comparecimento bastante alto desse eleitorado. Essa é uma das razões pelas quais a gente espera uma presença alta agora em 2020", diz Poggio. 

Peso real do voto

A eleição de quatro anos atrás já mostrava uma virada de gerações. Os millenials, junto de pessoas das gerações X e Y (nascidos nos anos 80 em diante), corresponderam a mais da metade dos votos pela primeira vez na história, superando por pouco mais de 2 milhões os baby-boomers (nascidos na década de 1960) e faixas etárias mais antigas, segundo dados do Pew Research Center.

Tradicionalmente participantes do processo eleitoral, 69% dos boomers votaram em 2016. Entretanto, a virada se consolidou com a participação da geração X: mais de 63% compareceram para depositar os votos — a única faixa etária a alcançar um pico naquele ano.

Em 2020, uma nova potencial força é a geração Z, jovens com idade atual entre 18 e 23 anos, que trazem consigo ainda mais a força da questão racial na disputa presidencial. Na última eleição, eles foram apenas 4% dos eleitores. 

Quatro em cada 10 (45%) dos possíveis eleitores dessa faixa etária têm pele não-branca, segundo o Pew Research Center. Em comparação, quase três em cada quatro (74%) dos boomers e gerações anteriores são brancos.

“A questão da desigualdade racial é um tema forte entre os jovens que identificam-se mais com o Partido Democrata”, avalia Paulo Sotero, pesquisador sênior do Brazil Institute no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington. 

“Muito mais pessoas alcançaram posições de poder, compartilham perspectiva e conhecimento de onde viveram”, pondera Fontaine, um americano na fronteira entre a geração X e Z. “Hoje temos pessoas negras com mais acesso a lugares que antes não lhe eram disponíveis.”

Em ambientes digitais, é possível notar a diferença nas estratégias dos partidos. Para os Republicanos, a prioridade ainda é eleitores acima de 50 anos. Para Sotero, a questão econômica é a principal pauta do jovem republicano. “Entre os conservadores, a prioridade é o emprego”, diz. “É a perspectiva de conseguir um emprego após a universidade.”

De acordo com o Illuminating, banco de dados da Universidade de Syracuse que mede os valores investidos em publicidade pelos candidatos à presidência americana no Facebook e Instagram, entre junho e a terceira semana de outubro, Biden investiu aproximadamente 51% do orçamento em publicidade para alcançar potenciais eleitores entre 18 a 44 anos; Trump gastou cerca de 37%.

“A campanha de Obama, em 2008, foi a primeira da história dos EUA que soube utilizar as redes sociais, uma nova forma de comunicação, até então” diz Poggio. “Se você vir os muito jovens hoje, eles são nativos digitais, nasceram nesse sistema. O jovem de 2008 ainda estava entendendo o que era aquilo.”

Ainda que exista um indicativo de número recorde entre os jovens, Sotero diz que é preciso ter cautela. “Uma coisa é o jovem dizer que vai votar; o número de jovens que se inscrevem para votar é um, e os que vão votar é outro.”

Fontaine, ainda assim, se mantém otimista: “Muitos jovens estão muito engajados politicamente e isso me surpreende.” Ele acredita que, pelo acesso às redes sociais, os jovens estão numa posição de maior adesão a assuntos políticos. 

“É mais do que votar”, argumenta. “É sobre estar no topo e tornar as pessoas no poder mais responsáveis por suas ações e pressioná-las para cumprir suas promessas.”

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