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Mais de 70 crianças morreram afogadas no Mediterrâneo desde setembro

Apesar da comoção mundial após divulgação de foto de Aylan Kurdi, garoto de sírio de três anos que se afogou na Turquia, o drama da travessia ilegal de crianças à Europa ainda não acabou

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2015 | 11h33

GENEBRA - Desde a morte do garoto Aylan Kurdi, numa praia da Turquia, que comoveu o mundo no começo de setembro, mais de 70 crianças morreram afogadas tentando cruzar o mar entre a Turquia e a Europa, praticamente nas mesmas condições. Dados divulgados por ONGs, pela ONU e pela Organização Internacional de Migração (IOM, na sigla em inglês) revelam que "o massacre continua". 

Aylan, de três anos, foi encontrado sem vida numa praia turca, depois do naufrágio do barco em que sua família síria tentava chegar até a Europa. Sua imagem se transformou no símbolo da crise dos refugiados. 

Líderes internacionais se mobilizaram e prometeram ações, mas segundo a entidade Save the Children e a IOM, os números revelam que o drama não acabou. Entre 2 de setembro e 26 de outubro, outros 69 menores morreram afogados no mar, entre Turquia e Grécia. Na quarta-feira, mais 5 crianças morreram perto da ilha grega de Lesbos. 

O que mais preocupa as entidades é que, com o inverno chegando, as águas estão cada vez mais agitadas e frias. "Apesar do trajeto entre a Turquia e a Grécia ser curto, as águas estão cada vez mais perigosas e vemos um número elevado de mortes", disse Kate O'Sullivan, da Save the Children em Lesbos. 

"O que precisamos é de rotas legais para que os refugiados possam ir até a Europa", afirmou Kate. "Essas mortes são desnecessárias."

Para as entidades, o frio europeu nos próximos meses é um fator que preocupa. "Vemos crianças dormindo apenas com a roupa do corpo, com lábios e mãos azuis de frio. Isso vai piorar muito quando o inverno chegar", alertou. 

Um grupo de mais de 50 entidades, incluindo a ONU, ONGs e igrejas, lançou um alerta para a União Europeia (UE) sobre o fato de que 174 mil crianças estão neste momento cruzando a Europa em busca de abrigo. 

Para Joe Milmann, porta-voz da IOM, "o massacre continua" e o número de refugiados mortos no Mediterrâneo aumenta a cada dia. "No total, já foram mais de 3,3 mil mortes em dez meses, um número inédito", disse.

A ONU também confirma que o volume de refugiados superou qualquer previsão. Em setembro, a previsão era de que o ano terminaria com 700 mil novas chegadas à Europa. "Mas já ultrapassamos esse número, faltando ainda dois meses para terminar 2015", admitiu Adrian Edwards, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). 

Segundo ele, a ONU vai lançar um novo apelo por ajuda em novembro e trará suas novas previsões. "Não vemos o fluxo cair e tememos pela situação agora com as temperaturas baixas", disse. "É uma rota muito perigosa e não temos sinais de que ela vai parar de ser usada."

Segundo Adrian, um sinal claro disso é que traficantes agora buscam barcos maiores para fazer a travessia. "Isso significa que um número ainda maior de pessoas está disposta a viajar", completou. 

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