Tasso Marcelo/AE
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'Mais de cem países criam tecnologia de ataque cibernético'

Britânico diz que tratados internacionais ignoram arsenal digital de países e liga aumento de crimes à expansão dos Brics

Luciana Nunes Leal, do Rio,

29 de novembro de 2011 | 01h03

RIO DE JANEIRO - O jornalista e escritor britânico Misha Glenny, estudioso de crimes cibernéticos, descreve com poucas palavras a segurança dos sistemas de computadores no Brasil. "Uma porcaria", afirma, referindo-se às indústrias e aos órgãos do governo.

 

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linkÍNTEGRA: A entrevista concedida por Glenny ao 'Link'

 

Glenny é autor de Mercado Sombrio (Cia. das Letras, 384 páginas, R$ 49,50), que será lançado no Brasil na sexta-feira, 2. O jornalista pesquisa hackers e a guerra cibernética entre os países, intensificada a partir do vírus que, em 2010, atingiu o programa nuclear iraniano. Glenny falou ao Estado na segunda-feira, 28, no Rio.

 

Estado: Como chegou aos hackers brasileiros para escrever ‘Mercado Sombrio’?

 

Misha Glenny: Existem três tipos de hackers, os white hats (chapéus brancos), que supostamente trabalham para o bem da sociedade, os black hats (chapéus pretos), criminosos com propósitos subversivos, e os gray hats (chapéus cinzas), que transitam entre os dois. Entrevistei alguns gray hats que me puseram em contato com hackers envolvidos em crimes significativos no Brasil. Também conversei com policiais federais que prenderam outros membros do grupo.

 

Estado: Como é a segurança cibernética no Brasil?

 

Misha Glenny: Nos bancos, é boa. Nas indústrias e no governo, eu diria que é uma porcaria. Quando os crimes cibernéticos começaram a se desenvolver, nos anos 1990 e na primeira década deste século, os Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) serviram ao desenvolvimento desses crimes. A Rússia em primeiro lugar.

 

Estado: Por que o crime se desenvolveu nesses países?

 

Misha Glenny: Razões políticas, econômicas e sociais fazem parte do processo. Na Rússia, você tem a queda do comunismo. No Brasil, depois de 1989, a economia ficou muito mais liberal. A cultura do consumo acelerou, mas um número enorme de brasileiros não tem meios de comprar esses bens. E os jovens perceberam que podem usar o computador muito melhor que os mais velhos.

 

Estado: Como o crime organizado tradicional migrou para o cibernético?

 

Misha Glenny: De repente (com o início da crise internacional, em 2008), os americanos e europeus ocidentais, maiores compradores de produtos ilícitos no mundo, não tinham tanto dinheiro para prostitutas, para cocaína. O crime organizado tradicional teve uma baixa e procurou outras maneiras de ganhar dinheiro. Em períodos de recessão sempre há aumento das fraudes financeiras. Nessa recessão, a fraude financeira ficou muito mais fácil por causa da internet. Jovens membros do crime organizado tradicional fizeram amizades com hackers. Existem três pilares: o crime na internet; a espionagem industrial e a guerra cibernética. As fronteiras são nebulosas. E o Stuxnet (vírus que atingiu o programa nuclear iraniano, em 2010) mudou as regras do jogo. Agora, mais de cem países no mundo criam tecnologia de ataque cibernético que não está em qualquer tratado internacional.

 

Estado: Onde vai parar a guerra cibernética?

 

Misha Glenny: Existe um fator importante que limita o desenvolvimento das armas cibernéticas: as duas ciberpotências, EUA e China, graças a Deus, são completamente dependentes economicamente uma da outra. Se uma atacar a outra de forma cibernética será um suicídio simultâneo.

 

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