Mohamed Saber / EFE
Mohamed Saber / EFE

Mais de dois milhões de muçulmanos iniciam peregrinação anual a Meca

Ritual tem ganhado auxílio da tecnologia, com diversos aplicativos de celular que ajudam os fiéis a compreender as instruções, se orientar ou obter atendimento urgente do Crescente Vermelho saudita

O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 15h35

MECA, ARÁBIA SAUDITA - Sob um sol forte, mais de dois milhões de muçulmanos começaram neste domingo, 19, a peregrinação anual a Meca, em uma Arábia Saudita em plena transformação. A concentração de multidões representa um desafio logístico para as autoridades.

O hajj (peregrinação) é um dos cinco pilares do Islã de cumprimento obrigatório para todos os muçulmanos ao menos uma vez na vida, sempre que disponham de meios para fazê-lo.

"Vir aqui é o sonho de todo muçulmano", é "a última viagem", disse Soliman Ben Mohri, um comerciante de 53 anos que mora na França. O fervor é tanto que alguns peregrinos acabam esquecendo dos 40ºC.

Os peregrinos chegam a Meca, na parte oeste do reino, oriundos de diversas partes do mundo, especialmente Egito, Índia, Paquistão, Bangladesh e Sudão, informam as autoridades.

Neste domingo, os fiéis vão a um vale de Mina, onde passarão a noite antes de se dirigirem para o Monte Arafat, momento culminante da peregrinação. Foi neste local onde, segundo a tradição islâmica, o profeta Maomé pronunciou seu último sermão. Os peregrinos passam o dia rezando e pedindo clemência a Alá.

A peregrinação terminará com o Aid al Adha, também conhecido como Festa do Sacrifício, que dura três dias e é seguido pelo ritual da "lapidação de Satanás".

Tecnologia e tradutores

Com o passar dos anos, o hajj foi adquirindo um aspecto cada vez mais tecnológico, com diversos aplicativos de celular para ajudar os fiéis a compreender as instruções, se orientar ou obter atendimento urgente do Crescente Vermelho saudita.

Além disso, uma brigada de tradutores ajuda os fiéis que não falam árabe. Cerca de 80% dos peregrinos que vão a Meca estão neste grupo, de acordo com Mazen al-Saadi, do escritório de tradução do hajj. Sua equipe fornece serviços de tradução 24 horas por dia em inglês, francês, farsi, malaio, hausa, turco, chinês e urdu, o idioma mais falado entre os peregrinos.

Para Samir Varatchia, da ilha francesa de Réunion, no Oceano Índico, ver a equipe de tradutores é um alívio. "Não sei muito árabe", disse. "A tradução ao francês ajudará a compreender as coisas, como os sermões.”

O intérprete tunisiano Abdulmumen al-Saket está feliz em ajudar, muitas vezes respondendo perguntas pelo celular. "Tentamos ajudar em tudo o que podemos, inclusive lendo mapas", explicou. "Algumas pessoas pedem os nossos números pessoais para ligarem depois se precisarem de ajuda.”

Muitas placas de Meca estão traduzidas somente para o inglês, urdu e, em alguns casos, francês. A Grande Mesquita de Meca fornece alguns serviços de tradução e interpretação para os peregrinos, mas para questões práticas, a equipe de Saadi, composta por 80 pessoas, tornou-se indispensável. "A maior parte dos peregrinos não fala árabe, e eles ficam com medo de perguntar se houve um acidente", contou Sanaullah Ghuri, um tradutor indiano.

As autoridades também melhoraram a segurança para evitar incidentes como os dos últimos anos. Em 2015, a peregrinação foi marcada por uma grande explosão, na qual morreram 2,3 mil pessoas, entre elas centenas de iranianos.

Iêmen e Catar

O hajj de 2018 ocorre em um momento no qual a Arábia Saudita, um país ultraconservador, encontra-se em plena transformação, com uma série de reformas que, por exemplo, permitiram que as mulheres dirijam. No entanto, ao mesmo tempo, as autoridades calam duramente as vozes dissidentes.

O príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, filho do rei e impulsionador das reformas, garante que quer "voltar a um Islã moderado e tolerante", o que não o impede de multiplicar as prisões de dissidentes, incluindo defensores dos direitos humanos e clérigos críticos.

A peregrinação também coincide com uma guerra no Iêmen, onde a Arábia Saudita combate os rebeldes houthis xiitas, apoiados pelo Irã, grande rival regional de Riad.

Relembre como foi a peregrinação de 2016

Pelo segundo ano consecutivo, o Catar se queixou de que seus cidadãos foram privados do hajj pela crise diplomática com Riad. Já as autoridades sauditas acusam Doha de criar obstáculos para a mobilização de cidadãos aos lugares santos.

Cerca de 1,2 mil cidadãos do Catar deveriam poder participar do hajj, de acordo com um sistema de cotas por países, mas alguns se queixam da impossibilidade de se inscrever no site do Ministério de Peregrinação saudita.

Desde 1987, centenas de pessoas morreram em explosões ou em confrontos entre policiais sauditas e peregrinos iranianos que se manifestavam contra EUA e Israel. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.