'Mais do que presidentes, uruguaios votam em partidos'

Para escritor e cientista político, setor 'desenvolvimentista' deve influenciar futuro governo de Tabaré

BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2014 | 02h02

O cientista político Adolfo Garcé, professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da República e autor de A Era Progressista, afirmou em entrevista ao Estado que o virtual terceiro governo da Frente Ampla, de centro-esquerda, será marcado pela influência do setor "desenvolvimentista" da coalizão. Além disso, segundo ele, Tabaré Vázquez, o candidato presidencial, terá de manter um diálogo interno permanente entre as várias facções do partido.

Costuma-se afirmar que, mais do que um segundo turno entre candidatos à presidência, os uruguaios vão às urnas para eleger entre dois partidos. É verdade?

Exato. Os presidentes uruguaios, movendo-se dentro do marco de restrições institucionais e políticas importantes, deixam de alguma forma suas características pessoais no governo. No entanto, em nosso país não governam as pessoas, mas sim os partidos. Em alguns países, os presidentes têm as mãos mais 'livres' do que em outros. Mas, no Uruguai, eles não tem as mãos livres porque o poder está dividido nas estruturas políticas. O ex-presidente Jorge Battle (2000-2005) costumava dizer que o Uruguai é o país do empate. Mesmo quando os presidentes têm maiorias parlamentares, eles enfrentam restrições políticas significativas.

Isso significa que Tabaré não teria o poder total dentro de seu governo?

Lá fora existe uma ilusão quando as pessoas falam que esse seria o segundo mandato de Tabaré (o primeiro, entre 2005 e 2010, sucedido por José Mujica, seu colega de partido). Na realidade, esse seria o terceiro governo do mesmo partido, a Frente Ampla. Tabaré controla uma parte da coalizão, mas a outra responde a Mujica. Além disso, existem outros setores. O governo de Tabaré será um contínuo exercício de diálogo interno entre os vários setores da coalizão. Haverá mais continuidade do que mudanças significativas entre a administração de Mujica e a nova gestão de Tabaré. Possivelmente, embora não seja um entusiasta da lei de regulação da maconha, Tabaré não fará mudanças no assunto, implementado por Mujica. Os partidos mudam, mas não tão rápido como os políticos.

O que se pode esperar de um novo mandato de Tabaré caso, como indicam as pesquisas, ele seja eleito no próximo domingo?

A Frente Ampla, tal como as social-democracias modernas, tem a aspiração de continuar conciliando crescimento econômico com igualdade social. No entanto, o roteiro terá algumas mudanças daqui para frente. Na área econômica, o eventual terceiro governo frente-amplista tenderá a ser mais desenvolvimentista do que nos dois anteriores. Na Frente Ampla, convivem três visões sobre o desenvolvimento econômico. Uma delas, que se parece mais com a de outros partidos tradicionais, vinculada ao atual vice-presidente Danilo Astori - que continuará no governo Tabaré como ministro da Economia -, defende a construção de bons mercados por intermédio da estabilidade das denominadas "regras do jogo". No lado oposto, estão os comunistas e integrantes do MPP (Movimento de Participação Popular, grupo do presidente Mujica), que aceitam o capitalismo embora sem renunciar ao socialismo. E, no meio, estão os desenvolvimentistas, que apostam no fortalecimento do papel do Estado. Seja como for, nesse novo mandato, a Frente Ampla não mudará o projeto de continuar atraindo capitais estrangeiros para investir no país.

Com dois mandatos consecutivos acumulados e um terceiro quase inevitável, a Frente Ampla transformou-se em um partido tradicional, tal como o Colorado e o Nacional?

Nós, cientistas políticos, dizíamos há muito tempo que a Frente Ampla já era um partido tradicional graças a sua base eleitoral, social e cultural. A Frente, que nasceu há mais de 40 anos questionando o caudilhismo, acabou sendo um partido de caudilhos. É uma coalizão que reúne comunistas, ex-guerrilheiros tupamaros, democratas-cristãos e socialistas. Isto é, possui diferenças ideológicas internas grandes, mas isso lhe permitiu obter votos de diversos setores da população. É uma coalizão policlassista.

Qual poderá ser o futuro de Lacalle Pou, o candidato do Partido Nacional, que enfrentará Tabaré no segundo turno?

Lacalle Pou, mesmo perdendo na votação de domingo que vem, terá feito uma excelente eleição. Ele foi a grande surpresa das eleições presidenciais deste ano. / A.P.

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