Miraflores Palace/Handout via Reuters
Miraflores Palace/Handout via Reuters

Mais dólares, menos protestos na Venezuela

Sanções levaram o regime a se afastar do socialismo, mas não da ditadura, e governo encontra brechas para suas atividades

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 05h00

Humboldt, um hotel de luxo com vista para Caracas, sempre foi símbolo das promessas não cumpridas pelos governos venezuelanos. Construído em 1956, na ditadura militar de Marcos Pérez Jiménez, ele ficou vazio na maior parte do tempo. O teleférico que leva ao local, no topo da montanha, está quebrado. O atual regime, uma ditadura socialista comandada por Nicolás Maduro, promete que o hotel será reinaugurado como o primeiro “sete estrelas” do país.

Em 14 de dezembro, ali houve uma festa. As luzes de natal piscavam. Um DJ apresentava os sucessos de reggaeton. Modelos dançavam em torno da piscina vazia. Os conectados, indivíduos que enriqueceram por suas ligações com o regime, degustavam vodca importada nas mesas com vista panorâmica para a capital de um país que atravessa a maior recessão do mundo. “Caracas se tornou algo como o Grande Gatsby”, disse Karina González, jovem secretária, olhando o show de luzes. “A decadência junto com a penúria.”

A festa no Humboldt é um sinal de mudança. Não é um retorno da prosperidade, que não vai além dos foliões e companhia. Nem se trata da democratização exigida pela oposição e pelos países que a apoiam. Ao contrário, indica a crescente confiança do governo de que sobreviverá à pressão internacional para derrubá-lo liderada pelos Estados Unidos.

A política americana de “máxima pressão” sobre o regime começou em janeiro, depois de Juan Guaidó, líder do Legislativo controlado pela oposição, proclamar-se presidente interino da Venezuela sob alegação de que Maduro manipulou sua reeleição em 2018.

Muitos países reconheceram Guaidó como presidente. O governo de Donald Trump proibiu compras de petróleo venezuelano pelos EUA, que eram o maior cliente da Venezuela. E ampliou as sanções contra pessoas, incluindo praticamente todos que pertencem ao círculo de Maduro.

As sanções no caso do petróleo têm sido contornadas. A Venezuela encontrou clientes não americanos, como a Rosneff, da Rússia. A produção da estatal petrolífera venezuelana, a PDVSA, mostra sinais de recuperação depois de cair três quartos desde 2015. A companhia firmou acordo com uma petrolífera indiana para incrementá-la e reformar as refinarias. E o país arrecada dinheiro extra com a venda de ouro (de minas ilegais e de suas reservas) e narcóticos.

As sanções tiveram consequências inesperadas. Autoridades cujas viagens estão restritas e cujas contas em bancos estrangeiros estão congeladas gastam mais tempo e dinheiro em casa, o que explica a festa no Humboldt. Mais importante, as sanções relativas ao petróleo foram um choque para forçar o governo a recuar do socialismo. Maduro suspendeu quase todos os controles econômicos impostos por Hugo Chávez, o líder carismático da “revolução bolivariana”, que morreu em 2013. As sanções “tornaram o governo mais flexível”, disse o economista Luis Oliveros.

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Protestos foram convocados pela oposição e receberam apoio dos Estados Unidos.

O governo não dita mais a taxa cambial e não controla os preços. As empresas privadas agora podem importar o que quiserem e estabelecer os próprios preços. Os supermercados em Caracas, praticamente vazios em grande parte de 2017 e 2018, agora estão estocados com alimentos. E não só os ricos podem comprar. Talvez um terço dos venezuelanos tem acesso direto a remessas feitas por parentes que vivem no exterior.

Desde que Maduro assumiu o governo, em 2013, pelo menos 4 milhões de pessoas, 12% da população, deixaram o país. Os que vivem no exterior enviam para a Venezuela US$ 4 bilhões ao ano, ou quase 3% do PIB (Produto Interno Bruto) do país, de acordo com a consultora Econoanalitica. Esse dinheiro complementa a distribuição de comida pelo governo.

O dólar ocupa o espaço do bolívar, a moeda mais inflacionada do mundo. Os motoristas de táxi e faxineiras cobram em dólar, mesmo que aceitem pagamento em bolívares. McDonald’s paga aos funcionários um bônus de US$ 20 por mês, mais do que o triplo do salário mínimo de 300 mil bolívares. Os preços nas lojas de departamentos no centro de Caracas são em dólar, embora ele não apareça nas etiquetas. O valor das notas de dólar em circulação excede o dos bolívares.

A moeda venezuelana, com a qual muitas pessoas são pagas, não vem depreciando tão rápido como antes. O governo endureceu os requisitos de reserva dos bancos. De acordo com a Assembleia Nacional, a taxa de inflação anual caiu do início de 2019 para novembro, mas ainda é a mais alta do mundo. “As coisas estão um pouco melhores em relação ao ano passado”, disse Héctor Márquez, mecânico. 

Fora de Caracas, poucos venezuelanos concordam. As pessoas continuam a morrer nos hospitais que não têm equipamentos ou remédios. As Nações Unidas estimam que 7 milhões de venezuelanos necessitam urgentemente de ajuda humanitária. Muitos fogem das cidades do interior e vão para Caracas, onde os congestionamentos retornaram. 

Tranquilidade em Caracas é o que Maduro mais deseja. Um venezuelano com acesso a dólares tem menos probabilidade de protestar contra o governo, sublinhou Oliveros. O que complica a tarefa de Guaidó, que tem prometido que o regime “cairá em breve”. Sua principal esperança é que as Forças Armadas mudem de lado, mas há poucos sinais disso. O novo foco de Guaidó é promover a reforma do Colégio Eleitoral, com o qual o regime conta para manipular as eleições em seu favor.

Publicamente, o governo Trump ainda respalda Guaidó. Mas notícias recentes sugerem que Trump vem buscando novas ideias. Uma é trabalhar com a Rússia para pressionar Maduro. Outra é falar diretamente com o regime. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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