Mais importante deserção de generais sírios antecede visita de Annan a Assad

Enquanto a ONU e a Liga Árabe se preparavam para enviar hoje a Damasco o ex-secretário das Nações Unidas Kofi Annan - em mais uma tentativa de uma saída política para o conflito -, quatro generais do Exército sírio cruzaram a fronteira entre a Síria e a Turquia na madrugada de ontem, elevando para sete o número de generais desertores.

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL , ANTAKYA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h07

Eles entraram pelo campo de refugiados de Bohsin e depois foram encaminhados para o acampamento do Exército Livre da Síria (ELS), em Apaydin, a poucos quilômetros dali. A deserção dos oficiais - a de três deles foi anunciada ainda na quinta-feira - foi a mais importante desde o início do conflito na Síria, há um ano.

Um ativista da oposição que serviu por quatro anos no Exército sírio disse que viu os generais em Bohsin, às 2h30 da madrugada, acrescentando que eles chegaram à paisana, mas depois vestiram suas fardas, confirmando sua patente. Seus nomes não foram revelados, para proteger suas famílias na Síria.

De acordo com os rebeldes, as autoridades sírias prenderam parentes do general Faez Amro depois que ele desertou, no mês passado. Há informações de execuções de parentes de militares desertores.

Agora há seis generais no campo de Apaydin, que abriga mais de mil militares desertores. O sétimo general rebelde, identificado como Adnan Farzat, está em Homs, no centro-oeste da Síria, comandando batalhões no combate contra as forças leais ao presidente Bashar Assad, segundo fontes da oposição.

Os quatro generais pertencem a um grupo de dez oficiais de alta patente que desertaram nos últimos dias, provenientes de várias cidades da Síria, incluindo Damasco, Homs e Latakia, informou a agência estatal turca de notícias Anatolia.

Ativistas da oposição com base no campo de Bohsin, principal ponto de chegada dos que cruzam a fronteira, disseram ao Estado que 60 oficiais desertores sírios chegaram à Turquia na semana passada. Isso, apesar da forte presença das forças leais ao regime no flanco norte, na tentativa de evitar o trânsito na fronteira.

Em Washington, Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, definiu as deserções como "um passo importante", que confirma a percepção do governo americano de que o presidente Bashar Assad cairá.

Os generais vieram acompanhados de 14 civis, pertencentes a 3 famílias, aparentemente não vinculadas a eles. As famílias foram acomodadas provisoriamente no campo de Bohsin, que já abriga 2 mil pessoas e não pode receber mais refugiados. No total, há mais de 11 mil refugiados sírios na Turquia, distribuídos por 6 campos.

Ao menos 54 pessoas foram mortas ontem na repressão contra os oposicionistas e nos confrontos entre Exército e rebeldes em várias cidades do país, segundo grupos de ativistas locais que monitoram as baixas. Desses, 24 morreram em ataques do Exército na Província de Idlib, na fronteira noroeste com a Turquia. Outros 17 foram mortos em Homs, no centro-oeste do país. Tanques e morteiros dispararam contra redutos rebeldes em Homs, segundo os ativistas ouvidos pelas agências internacionais.

Oposição irritada. A missão liderada por Annan tentará explorar possibilidades de uma saída política para o conflito e assegurar o acesso das agências humanitárias aos feridos e aos moradores que sofrem com a falta de alimentos, medicamentos e eletricidade. Declarações dadas por Annan na quinta-feira em favor de negociações com Assad enfureceram os oposicionistas, que não veem mais essa possibilidade.

Vídeos publicados no YouTube mostraram manifestantes no bairro de Assali, em Damasco, queimando cartazes com a foto de Hafez Assad, pai do atual presidente, morto em 2000, e gritando: "Deus amaldiçoe sua alma, Hafez".

Milhares de curdos saíram às ruas ontem em cidades do nordeste da Síria para lembrar o aniversário dos distúrbios ocorridos em 2004, que deixaram 30 mortos. Gravações também no YouTube mostraram manifestantes carregando cartazes que diziam "Salvem o povo sírio".

Os distúrbios eclodiram no dia 12 de março de 2004 em um estádio de futebol na cidade de Qamishli, de maioria curda, no nordeste da Síria, durante uma partida entre um time da casa e uma equipe árabe da cidade de Deir al-Zor. Os curdos acusaram a polícia de abrir fogo contra sua torcida, dando início aos protestos, que duraram vários dias e foram violentamente reprimidos.

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