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Mais lugares conturbados

Não faltam lugares conturbados no mundo atual. Novos desafios da Rússia revanchista, uma poderosa insurgência no Iraque e a escalada das tensões entre a China e seus vizinhos estão ganhando manchetes preocupantes. Por enquanto, essas fontes de conflito tiveram pouco impacto fora de suas respectivas regiões. Isso está prestes a mudar.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h02

Primeiro, há o desafio do Kremlin. A Ucrânia continua sendo a peça crucial do sonho do presidente russo, Vladimir Putin, de uma União Eurasiana, mas as agitações dos últimos nove meses no interior da Ucrânia aprofundaram a divisão entre os dois países.

Não pode haver paz na Ucrânia no futuro previsível. Kiev está determinada a reduzir sua dependência econômica de Moscou e aprofundar os laços políticos, econômicos e de segurança com a União Europeia.

Para reverter esse processo, Putin usará toda forma de pressão ao seu dispor para forçar uma reformulação da Constituição da Ucrânia que daria mais poder a governos regionais do país, permitindo que Moscou usasse sua influência nas províncias orientais para desacelerar a progressão de Kiev para o oeste. Nenhum lado fará concessões até ser obrigado a isso.

O Ocidente provavelmente imporá sanções ainda mais duras contra a Rússia, que cuidará, então, de forçar a Europa a compartilhar os custos do confronto.

Sectarismo. No Iraque, o sectarismo está novamente na ordem do dia, criando laços mais estreitos entre as populações sunitas, xiitas e curdas do país, de um lado, e seus respectivos irmãos além das fronteiras.

Hoje, os militantes sunitas que assumiram o controle de cidades do norte do Iraque não têm meios para derrubar o governo dominado por xiitas em Bagdá.

Entretanto, faltam meios ao governo para desalojar os extremistas, enquanto os curdos estabeleceram uma autonomia de facto em seus territórios setentrionais.

O maior risco é que as batalhas entre xiitas e sunitas no Iraque se propaguem numa única guerra regional. Os islamistas sunitas usarão a terra que controlam para recrutar e treinar jihadistas. O Irã aprofundará seus laços com Bagdá. Os sauditas não apoiarão mais publicamente os militantes sunitas, mas, para evitar o domínio xiita e uma aliança mais formal Teerã-Bagdá, permitirão que dinheiro e armas de sauditas simpáticos à causa cheguem até eles. Os americanos, cada vez mais avessos ao risco, permanecerão de lado.

A rivalidade entre o Irã e a Arábia Saudita avançará para outras batalhas via intermediários por todo o Oriente Médio.

Ásia. No Leste Asiático, as relações entre a China e seus vizinhos podem ficar cada vez mais perigosas. Para afirmar sua crescente influência regional e aplacar a demanda, particularmente nas forças militares, de uma política externa mais assertiva, Pequim ficou mais belicosa, particularmente nas águas disputadas da região.

Por enquanto, a China está diretamente em conflito com o Vietnã, em parte, porque as repercussões econômicas desse confronto são menos perigosas economicamente do que com o Japão - e pelo fato de o Vietnã, diferentemente do Japão e das Filipinas, não ter um apoio formal dos Estados Unidos.

Ameaça. Essa situação pode ficar mais perigosa, porém, porque o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, anunciou planos de "reinterpretar" a Constituição japonesa para permitir que o país leve sua política de segurança além da autodefesa.

Isso aumenta as chances futuras de China e Japão se confrontarem com maior frequência no Mar da China Oriental e a ameaça de o Japão ficar mais ativo no Mar da China Meridional em favor de seus aliados deixará nervosos os líderes militares chineses.

Os governos da segunda e da terceira maiores economias do mundo trabalharão duro para evitar um confronto militar, mas nenhum deles será surdo à demanda pública doméstica de um posição inflexível quando as coisas ficarem quentes. Esse risco provavelmente aumentará rapidamente se a China ficar menos estável do que está.

Resistência. A boa nova é que, de muitas maneiras, o mundo está mais preparado para absorver os choques criados por esses problemas do que estava há cinco anos. A economia americana se recuperou em grande parte de sua crise financeira. A zona do euro não está mais em perigo imediato.

A China evitou um pouso difícil de sua economia. As taxas de juros continuam relativamente baixas. Novas fontes de energia aplacaram o nervosismo dos mercados de petróleo. Esse é um mundo mais estável.

A má notícia é que essas forças provocam complacência - e os políticos mundiais podem se persuadir a evitar esses problemas crescentes até eles se tornarem impossíveis de ignorar.

Ebulição. Todas essas fontes de agitação são um produto da ruptura da ordem internacional vigente. Nenhuma delas pode ser resolvida sem uma intervenção significativa de atores externos poderosos e nenhum deles está consistentemente disposto ou é capaz de aceitar os custos e riscos que acompanham essa responsabilidade.

Com os Estados Unidos distraídos, cada vez mais avessos ao risco e menos dispostos a exercer uma liderança global - e mais ninguém pronto para preencher o vazio resultante - o número de lugares conturbados provavelmente aumentará. E eles se tornarão mais quentes do que nunca. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PRESIDENTE DA

CONSULTORIA EURASIA

GROUP E PROFESSOR DE

PESQUISA GLOBAL NA

UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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