Mais pragmático, Hamas revê posições históricas

Facção islâmica palestina diz que centrará atenção na 'resistência popular' e não 'militar', enquanto negocia com presidente Abbas entrada na OLP

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h03

Poderia ser só uma mudança semântica, mas para um grupo que ganhou fama explodindo restaurantes em Israel não é. O líder do Hamas, Khaled Meshal, anunciou que o foco da "resistência" não será mais "militar", mas sim "popular". Entre palestinos, o novo discurso soou como mais um sinal de um crescente pragmatismo do Hamas - que está negociando até sua entrada na Organização de Libertação da Palestina (OLP).

A declaração de Meshal foi feita ao lado do líder do Fatah e presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, com quem ele discutiu há duas semanas, no Cairo, a formação de um governo de união nacional. Os dois não chegaram a um acordo final, mas acertaram um documento de compromisso que inclui a realização de eleições em maio e a "reestruturação" da OLP. Saíram da sala sorrindo.

Fundada por Yasser Arafat em 1964, a OLP congrega vários grupos palestinos sob a hegemonia do Fatah. Formalmente, foi ela que assinou os acordos de paz com Israel e, se o Hamas entrar na organização, estará reconhecendo - ainda que de forma tácita - os compromissos acertados, incluindo o direito de existência do Estado judeu dentro das fronteiras de 1967.

"Todos os povos têm o direito de lutar contra a ocupação de todas as formas, incluindo com armas. Mas, neste momento, queremos cooperar com a resistência popular", disse Meshal, citando como exemplo as marchas em protesto contra o muro que israelenses construíram na Cisjordânia e Jerusalém Oriental. "Acreditamos na resistência militar. Mas a resistência popular é algo comum a todas as facções (palestinas)."

Falando a uma agência de notícias palestina após a reunião do Cairo, Abbas disse que "agora não há mais diferenças" entre ele e o líder do Hamas.

Se a facção islâmica realmente está passando por um processo de reorientação política, nem todo seu alto escalão parece apoiar a mudança. O Hamas é conhecido pela rigorosa disciplina, mantendo as divergências entre seus líderes da porta para dentro. No entanto, uma das principais vozes do grupo na Faixa de Gaza, o "chanceler" Mahmoud Zahar, rompeu a tradição e criticou publicamente as "concessões" de Meshal, que vive na Síria.

Em entrevista ao jornal pan-arabista Asharq Al-Awsat, publicado em Londres, Zahar recusou a decisão do número 1 do Hamas de aceitar as fronteiras de 1967 e alertou que "o diálogo com Abbas não levará a lugar nenhum", pois o líder do Fatah seria um títere dos EUA e de Israel. As críticas públicas teriam lhe rendido uma punição interna e parte de suas atribuições foram retiradas, ainda segundo o jornal pan-arabista.

Primavera palestina? Analistas e políticos palestinos ouvidos pelo Estado têm uma opinião comum sobre a razão do aparente redirecionamento do Hamas.

"O que está acontecendo no Egito, na Síria e na Tunísia tem efeito direto sobre nós", diz um quadro histórico do Fatah que pediu anonimato. "As atuais lideranças e os grupos existentes estão desgastados, são velhos. Eu mesmo penso em passar para uma terceira via, muito mais técnica, capaz de dar resultados concretos na vida das pessoas."

O Hamas é a filial palestina da Irmandade Muçulmana, movimento popular fundamentalista que emergiu esta semana como o grande vitorioso das eleições no Egito. Parte da cúpula da facção palestina, incluindo o próprio Meshal, encontrou abrigo na Síria do presidente Bashar Assad, mas o país atualmente vive "em guerra civil", segundo a investigação da ONU conduzida pelo brasileiro Sérgio Pinheiro Guimarães.

O número 1 do Hamas estaria negociando sua mudança para o Egito, mas a junta militar que controla o país não o quer perto da Irmandade Muçulmana. Meshal deve então partir para a Jordânia, com a bênção do rei Abdullah II.

"Partidos islâmicos em todo mundo árabe estão adotando uma agenda mais pragmática - veja os casos do Egito, da Tunísia e até do Marrocos - e não teria por que isso não ocorrer também entre os palestinos", diz Samaan Khory, ex-militante do grupo marxista Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e integrante do conselho político da OLP. "Se o Hamas conseguirá realmente trocar a violência por ações de desobediência civil, precisamos aguardar para ver."

O grupo quer entrar na OLP, afirma Khory, mas desde que consiga mudar parte da agenda e da estrutura da organização. Sobretudo, o Hamas buscaria dar uma "base islâmica" à OLP - que, desde sua fundação, foi marcadamente secular. Para o grupo muçulmano, a entrada na organização fundada por Arafat mudaria seu status e sua receptividade internacional.

Israel opõe-se totalmente a qualquer aproximação do Fatah com a facção islâmica. "Quanto mais perto Abbas chega do Hamas, mais longe ele fica da paz", afirmou o porta-voz do governo israelense, Mark Regev, logo após a reunião no Cairo entre Meshal e o presidente da Autoridade Palestina.

No dia 22, as facções palestinas se reunirão para discutir a reforma da OLP. "Foi uma espera longa, mas, se Deus quiser, finalmente vai acontecer", disse Izzat al-Rishq, militante do Hamas, referindo-se ao encontro.

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