Kobi Gideon/Government Press Office/Reuters
Kobi Gideon/Government Press Office/Reuters

Mais que bombardear o EI até o inferno

Novo presidente tem de evitar sucumbir à tentação de definir a derrota do Estado Islâmico como seu principal objetivo estratégico

Michael Doran / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 05h00

Durante a campanha presidencial, a política de Donald Trump para o Oriente Médio parecia começar e terminar em sua promessa de “bombardear até o inferno” o Estado Islâmico. A ameaça agradava a sua base, mas deixava inquietos especialistas em política externa do establishment, preocupados com que os danos colaterais alcançassem tudo que os EUA vinham tentando construir na região.

O establishment estava se dando crédito demais: nossas políticas para o Oriente Médio vêm se autodestruindo há um bom tempo. Ao embarcar em sua primeira viagem internacional como presidente, que inclui visitas a Israel e Arábia Saudita, Trump terá oportunidade de pôr em ação uma política de longo termo. Na verdade, já há o esboço dessa política. Assim, apesar das controvérsias em casa, Trump poderá começar a consolidar um legado: uma doutrina Trump para o Oriente Médio.

A região é complexa, mas antecessores de Trump se atropelaram ali por uma simples razão: a ascensão do Irã. Como funcionário de alto escalão do governo George W. Bush, pude ver em primeira mão como o projeto de Bush para democratizar o Iraque desviava a atenção da contenção do Irã e seus aliados.

Bush parecia acreditar que uma democracia robusta no Iraque serviria de baluarte tanto contra o extremismo sunita quanto contra o poder iraniano. No fim, o Irã infiltrou-se no Iraque debaixo do nariz de Bush, subverteu seu projeto e recrutou milícias simpatizantes para promover seus interesses.

Bush errou nos cálculos sobre o Irã. Já Barack Obama dedicou-se a conter a ascensão iraniana – não só no Iraque, mas também na Síria. Obama esforçou-se para segurar o Irã e buscou um acordo nuclear que permitisse ao Ocidente normalizar relações com o país, pois estava convencido de que o reconhecimento de uma esfera de influência iraniana persuadiria Teerã a agir como um parceiro na estabilização de Iraque e Síria.

Foi outro erro de cálculo, que levou à aliança militar russo-iraniana na Síria. Obama, como Bush, dedicou-se muito a resolver o conflito palestino-israelense – uma empreitada meritória, mas inútil, que os desviou de tratar mais da ascensão regional iraniana e, depois, da entrada da Rússia.

Ainda não se conhece a abordagem de Trump para o Oriente Médio, mas sua teimosia e disposição para questionar dogmas de política externa oferecem, em princípio, uma oportunidade de atacar várias falácias que levaram a deslizes estratégicos. Para começar, é falso que o “poder suave” americano seja a chave para se estabilizar a região.

Ideais como promover democracia, só serão alcançados se a ordem for antes estabelecida – o que depende do poder militar americano. E mais: o uso da força não é, por definição, contraproducente. A campanha da Rússia na Síria mostra que, nas mãos de um bom estrategista como o presidente Vladimir Putin, a superioridade militar produz resultados.

Prosseguindo, é falso que o apoio americano a antigos amigos seja causa de instabilidade. Ao se distanciarem deles e se aproximarem dos inimigos, os EUA não tornam o mundo mais seguro (é uma mentira a ainda maior imaginar que Washington possa não ter inimigos no Oriente Médio).

É igualmente um erro supor que os EUA possam isolar a Rússia do Irã em relação à Síria. As tensões entre Moscou e Teerã são insignificantes se comparadas a seu interesse comum em apoiar o regime de Bashar Assad e corroer a influência americana. Finalmente, o conflito palestino-israelense não é o centro de gravidade do Oriente Médio, nem tem previsão de solução no curto prazo. 

Não está claro se Trump reconhece todas essas falsas premissas. Se reconhecer, poderá sair na frente no jogo. Mas admitir erros é só o primeiro passo. O passo seguinte é resistir à tentação, à qual Obama sucumbiu, de definir a derrota do Estado Islâmico como principal objetivo estratégico. Se Trump destruir o EI, mas falhar em estabelecer uma coalizão regional estável, sua vitória terá vida curta. Um novo EI emergirá e Rússia e Irã explorarão o caos que virá a seguir.

O terceiro passo é montar essa coalizão. Jordânia, Egito e Emirados Árabes podem ajudar, mas apenas três aliados podem projetar seu poder além das fronteiras: Turquia, Israel e Arábia Saudita. É verdade que turcos e sauditas não são sempre aliados confiáveis – seus interesses não se alinham incondicionalmente com os dos EUA.

Mas deixá-los de lado só servirá para fazê-los criar mais problemas. A vantagem é que, diferentemente de Rússia e Irã, Ancara e Riad aceitariam uma ordem dominada pelos EUA.

Ao embarcar para Arábia Saudita e Israel após um encontro em Washington com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Trump assinala sua apreciação desse fato elementar. Ele pode, a partir disso, desenvolver uma doutrina Trump, com base em consolidar o apoio de aliados tradicionais contra o Irã.

Tal plano, desenvolvido em cima da penosa montagem e manutenção de uma coalizão, não é nem inspirador nem glamouroso. Mas ser um estadista exige aceitar os limites do possível. As escolhas no Oriente Médio estão entre o péssimo e o muito pior. Trump prometeu um realismo implacável. Esperemos que cumpra. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É EX-DIRETOR DO CONSELHO DE SEGURANÇA NO GOVERNO DE GEORGE W. BUSH E É MEMBRO DO HUDSON INSTITUTE

 

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