Bruno Kelly/Reuters
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Mais resistentes, contagiosas e desafiadoras: conheça as variantes do novo coronavírus

Variantes, mutações… esses termos, muito técnicos, são geradores de ansiedade e medo para o público em geral, já castigado pela pandemia de covid-19. Saiba mais sobre elas

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 16h37

Variantes, mutações… esses termos, muito técnicos, são geradores de ansiedade e medo para o público em geral, já castigado pela pandemia de covid-19. Saiba mais sobre elas: 

Quantas são as variantes?

No momento, três são consideradas especialmente preocupantes, as detectadas na Inglaterra, África do Sul e Japão (mas em viajantes do Brasil, daí o seu nome comum de "variante brasileira")

Ao mesmo tempo, existe uma segunda categoria de variantes, que estão sob vigilância da comunidade científica devido às suas características genéticas potencialmente problemáticas, mas que atualmente circulam em baixo nível.

Todas essas variantes são classificadas por famílias, ou "linhas", de acordo com as mutações que adquiriram, ocupam um lugar preciso na árvore genealógica do vírus SARS-CoV-2 de origem.

A lista se expandiu nas últimas semanas. Por exemplo, uma linhagem chamada B.1.525 foi detectada na Escócia, Nigéria, França e Austrália. Outras variantes foram detectadas na Califórnia, Zâmbia, Uganda e Finlândia.

Quais as consequências?

O aparecimento de variantes não chega a surpreender: é um processo natural, pois o vírus vai adquirindo mutações com o tempo para garantir a sua sobrevivência. “Mais de 4 mil variantes do SARS-CoV-2 foram identificadas em todo o mundo”, explicam os serviços de saúde britânicos em seu site.

Entre elas, “apenas uma pequena proporção é fonte de preocupação para a saúde pública”, segundo especialistas americanos, entre os quais o especialista do governo Anthony Fauci, em artigo publicado na revista especializada Jama.

O que importa é o tipo de mutações que eles adotam. Por exemplo, as variantes inglesa, sul-africana e brasileira compartilham uma mutação chamada N501Y, que pode torná-las mais contagiosas. E as variantes sul-africana e brasileira têm outra mutação, a E484K, que reduziria a imunidade adquirida seja por infecção passada - com maior possibilidade de reinfecção - ou por vacinas.

Para o público em geral, é difícil compreender totalmente as variantes, especialmente porque têm nomes muito técnicos, sem harmonização internacional. Por exemplo, a variante em inglês é chamada 501Y.V1 ou VOC202012 / 01 e pertence à linhagem ou família B.1.1.7.

São mais contagiosas?

“Pelo menos para a variante inglesa, e principalmente para a sul-africana, há consenso de que são mais transmissíveis”, explica Etienne Simon-Lorière, chefe de vírus RNA do Instituto Pasteur de Paris.

Mas essa constatação se baseia apenas nos dados epidemiológicos e na velocidade de disseminação dessas variantes, o que não nos permite chegar a uma conclusão categórica, uma vez que os resultados podem mudar de acordo com as medidas de restrição adotadas em cada região.

Assim, as autoridades britânicas anunciaram inicialmente que a variante inglesa era 50% a 70% mais transmissível, com base em observações locais. Mas o fato de não estar testemunhando propagações de tal magnitude em outros países torna necessário qualificar essa afirmação.

Por que certas variantes parecem ser mais contagiosas?

"Existem várias hipóteses a serem consideradas: talvez a carga viral seja mais alta ou a variante possa entrar nas células mais facilmente ou se multiplique mais rapidamente", disse à Olivier Schwartz, chefe da unidade de Vírus e Imunidade do Instituto Pasteur.

Pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, lançaram outra hipótese. Segundo eles, a infecção causada pela variante inglesa poderia durar mais: um indivíduo infectado permaneceria contagioso por mais tempo do que um coronavírus clássico.

Se confirmado, "um período de quarentena e isolamento maior do que os atualmente recomendados dez dias pode ser necessário", escreveram esses pesquisadores em um estudo recente.

 Qual é a eficácia das vacinas?

“De acordo com os testes, a variante inglesa não é motivo de preocupação, mas a variante sul-africana sim”, explica Etienne Simon-Lorière.

Vários estudos in vitro realmente convergem para afirmar que a variante sul-africana (chamada 501Y.V2 ou família B.1.351) parece reduzir a eficácia das vacinas, especialmente devido à famosa mutação E484K.

Os dois últimos estudos foram publicados na revista médica NEJM (The New England Journal of Medicine), na última quarta-feira, e foram conduzidos por cientistas da Pfizer/BioNTech e Moderna, os fabricantes de duas das principais vacinas.

Estudos mostram que a quantidade de anticorpos protetores produzidos após a injeção dessas duas vacinas é menos importante na presença da variante sul-africana (em comparação à variante inglesa ou ao vírus clássico). Isso sugere que a proteção é mais fraca.

A equipe do professor Schwartz conduziu um estudo semelhante, segundo o qual "a proteção contra a variante sul-africana é muito mais difícil com o tempo".

Observações semelhantes foram feitas para outras vacinas, como AstraZeneca (abandonada pela África do Sul por este motivo), Novavax ou Johnson e Johnson. No entanto, os cientistas alertam contra conclusões precipitadas.

Em primeiro lugar, mesmo que uma vacina seja menos eficaz contra a variante sul-africana, isso não significa que ela não seja de todo eficaz.

Além disso, essas investigações se concentram apenas na resposta do organismo após a vacina, ou seja, na produção de anticorpos: "não avaliam outros tipos de imunidade potenciais, como a atividade dos linfócitos T e B" (o que se chama imunidade celular), enfatizam o professor Fauci e seus colegas no artigo da Jama.

O que esperar?

“Provavelmente continuarão a surgir variantes contra as quais as vacinas atuais podem ser menos eficazes”, alerta o Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC).

Por esta razão, as autoridades mundiais de saúde instaram os fabricantes a trabalharem em vacinas de nova geração, adaptadas às variantes emergentes.

Além disso, a União Europeia e os Estados Unidos anunciaram a implementação de programas voltados para o fortalecimento das operações de sequenciamento genético, essenciais para acompanhar a progressão das variantes e detectar rapidamente o surgimento de novas mutações.

Por enquanto, os cientistas insistem em respeitar as medidas de proteção, tão cruciais contra as variantes quanto contra o coronavírus clássico./AFP 

 

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