Malala, a menina que sonhava ir para a escola

Paquistanesa de 14 anos que se tornou ícone do direito à educação após ser baleada pelo Taleban falava em criar partido político

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h08

"Eu quero receber educação e me tornar médica." A frase soaria natural para a maioria das meninas de sua idade, mas para Malala Yousafzai tinha a dimensão de um sonho. Tão grande que ela não consegue articular as palavras. Engasga, leva as mãozinhas até o rosto, emoldurado por um hijab cor de rosa, e chora.

A primeira cena do documentário filmado em 2009 por uma equipe do New York Times resume quem é a paquistanesa que aos 14 anos se tornou ícone do direito à educação feminina e do sofrimento cotidiano vivido por mulheres no Vale do Swat, na fronteira montanhosa e tribal entre Paquistão e Afeganistão: Malala é uma menina que queria ir para a escola. Mas no lugar onde vive isso pode lhe custar a vida.

Na segunda-feira, ela voltava para casa quando homens barbudos e armados pararam o ônibus escolar em que viajava. Perguntaram por Malala. Quando uma colega de classe apontou para ela, atiraram. Uma bala atingiu a cabeça da menina e alojou-se no pescoço. No assento ensanguentado do ônibus, a jovem deixou para trás a sacola com a foto do protagonista de Harry Potter em que carregava seus livros.

A evolução do estado clínico de Malala nas próximas 24 horas dirá se ela ficará viva ou não. "Desde que a tragédia ocorreu, o pai não deixa o hospital, não sai do lado do leito da filha", disse ao Estado o escritor paquistanês Mohammed Hanif, amigo da família.

Poeta, educador, dono de uma escola mista de ensino médio, Zia-ud-Din Yousafzai sente culpa. "Ele sempre foi um defensor, um apaixonado por educação e transmitiu essa paixão à filha", conta Hanif. Yousafzai dizia que se fosse morto por educar crianças, "não haveria forma melhor de morrer". Só não esperava que o alvo seria Malala.

Pai e filha têm uma relação especial. É com ela, e não com os dois filhos, que Yousafzai discute política. Os irmãos vão dormir e ela fica para ouvi-lo. A luta para educar a menina e manter a escola começou em 2007, quando o Tehrik-i-Taliban, o Taleban paquistanês, infiltrou-se em Mingora, a maior cidade da região, às margens do Rio Swat, onde vive a família. Entre março daquele ano e maio de 2009, destruíram mais de 400 escolas, algumas incendiadas, baniram as mulheres da vida social e aterrorizavam a população com execuções públicas e ameaças transmitidas por rádios clandestinas.

No rádio Yousafzai ouviu o ultimato para fechar as portas. Sua turma havia se reduzido a 15% porque as famílias temiam mandar os filhos à aula. Malala mudava o caminho todos os dias, escondia os livros sob a roupa mas não deixou os estudos.

Seu esforço saiu do anonimato com o documentário do NYT. Ela passou a escrever um blog para a BBC urdu sobre o cotidiano no Vale do Swat - "Diário de uma estudante paquistanesa". Por segurança, assinava Gul Makai.

"Àquela altura, ela já havia se tornado um ícone para as meninas da região. Todos sabiam quem era", conta Hanif. "Ela falava abertamente contra o Taleban, algo que nem políticos paquistaneses fazem, por medo."

Malala ganhou prêmios, fama e conseguiu das autoridades melhorias para escolas da região. Em dezembro, recebeu do primeiro-ministro Yousaf Paza Gilano o Prêmio Nacional da Paz - rebatizado com seu nome, assim como o colégio onde estuda. Na cerimônia, revelou o desejo de formar um partido político para defender a educação. Para o Taleban, estava indo longe demais.

"Malala sempre foi aquela menina que cresceria para trazer mudanças, para fazer a diferença. Era a única que ousava falar contra o Taleban", diz Samar Sezapsai, fundadora da Organização de Mulheres Pashtun - etnia de Malala e do Taleban.

Seu blog era a única janela para o cotidiano da guerra entre o Taleban e as Forças Armadas. Relatava o barulho da artilharia, corpos deixados nas ruas, o temor no trajeto à escola. "No caminho, ouvi um homem dizer: 'Vou matar você!' Apressei o passo... Para meu alívio, ele estava no celular e ameaçava alguém do outro lado da linha", escreveu em 3 de janeiro de 2009. "Eu vestia meu uniforme quando lembrei que o reitor disse para usarmos roupas comuns (por segurança). Escolhi meu vestido cor de rosa favorito, mas fomos alertadas a não usar cor, uma objeção do Taleban", contou dias depois. Em um dos últimos posts, previa: "É possível que eu nunca mais possa ir à escola."

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