(Lauren DeCicca/The New York Times)
(Lauren DeCicca/The New York Times)

Malásia desiste de investimentos da China para evitar dependência

Temendo endividamento excessivo, malaios rejeitam projetos chineses no país e tentam evitar destino de outros países do sudeste asiático

Hannah Beech, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2018 | 05h00

No ponto mais vital de travessia marítima do mundo, através do qual grande parte do comércio asiático trafega, uma empresa elétrica da China está investindo na construção de um porto que deve receber até um porta-aviões. Outra empresa chinesa está reformando um porto ao longo da área contestada do Mar da China Meridional.

Perto dali uma rede ferroviária financiada na maior parte por um banco governamental chinês vem sendo construída para acelerar o transporte de mercadorias ao longo da nova Rota da Seda, E uma incorporadora chinesa está criando quatro ilhas artificiais que servirão de residência para quase três quartos de um milhão de pessoas e visa atrair compradores chineses.

Cada um desses projetos – e outros mais - seria desenvolvido na Malásia, uma democracia do sudeste asiático, com base nos esforços da China para ganhar influência global. Mas embora a Malásia antes tenha cortejado o investimento chinês ela agora está na vanguarda de um novo fenômeno: um recuo contra os avanços de Pequim, uma vez que as nações temem se tornar extremamente endividadas por causa de projetos que não são nem viáveis e nem necessários – salvo seu valor estratégico para a China ou seu uso para fortalecer ditadores amigos.

O novo líder da Malásia, Mahathir Mohamad, encerrou uma viagem de cinco dias a Pequim na terça-feira cuja finalidade foi liberar seu país de cerca de US$ 250 bilhões, parte desse valor devido a empresas chinesas. Sua mensagem nos seus encontros foi clara: “Não queremos uma situação em que observamos uma nova versão de colonialismo porque os países pobres não conseguem competir com países ricos” disse ele no Great Hall of the People em Pequim, após sua reunião com o premiê Li Kegiang.

Durante um tempo parecia que o manual padrão da China para conquistar favores estava funcionando na Malásia. O país havia cortejado, com sucesso, o predecessor de Mahathir, Najib Razak, com empréstimo fácil e projetos de grande exposição e garantindo acordos que tinham valor estratégico para suas ambições.

Mas em maio começou o desastre, quando Najib foi destituído do cargo por um eleitorado cansado dos escândalos de corrupçãoque o envolviam, alguns relacionados a acordos de investimento da China na Malásia. Mahathir, 93 anos, foi eleito com um mandato que incluía tirar o país do endividamento sufocante.

Do Sri Lanka e Djibuti a Mianmar e Montenegro, muitos agraciados com recursos vindos da imensa campanha de financiamento de infra-estrutura da China, a chamada Iniciativa Um Cinturão, descobriram que o investimento chinês vem acompanhado de situações não tão agradáveis, incluindo processos de licitação fechados que resultam em contratos inflados e o uso de mão de obra chinesa às custas dos trabalhadores locais.

E crescem os temores de que a China vem usando esses enormes gastos no exterior para conseguir uma base de apoio em pontos estratégicos do mundo e talvez deliberadamente atrair nações vulneráveis para a armadilha da dívida de modo a aumentar o domínio chinês, à medida que a influência dos Estados Unidos diminui no mundo em desenvolvimento.

O governo de Mahathir suspendeu dois importantes projetos ligados aos chineses em meio a acusações de que o governo de Najib assinou acordos com a China para resgatar um fundo de investimento estatal dominado pela corrupção e financiar sua manutenção no poder.

Nesse pacote estava um contrato de US$ 13,4 bilhões firmado com a China Communications Construction Co. para a construção da East Coast Rail Link e um acordo de US$ 2,5 bilhões para um braço de uma empresa energética chinesa construir gasodutos.

“Os chineses devem estar pensando: ‘nós podemos conseguir as coisas baratas aqui”, disse Khor Yu Lend, economista malaio que tem pesquisado os investimentos chineses no Sudeste da Ásia. “Eles têm capital suficiente para fazer um jogo de longo prazo, podem esperar que os políticos contraiam enormes dívidas e depois entrarem e se apossarem de todo o patrimônio”.

A Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota tem por objetivo desenvolver elos robustos com outros países, moldar os interesses desses países de modo a alinhá-los com os da China e assim desencorajar o confronto ou as críticas quanto ao enfoque do país em temas sensíveis”, é o que diz um relatório do Pentágono divulgado na quinta-feira. “Os países que participam do BRI desenvolvem uma dependência do capital chinês que a China aproveita para alcançar seus interesses”.

O novo ministro das Finanças de Malásia, Lim Guan Eng, deu o exemplo do Sri Lanka, onde um porto de águas profundas construído por uma estatal chinesa não gerou muitas atividades. A ilha endividada foi obrigada a devolver para a China o arrendamento do porto com prazo de 99 anos e mais terras perto do porto, dando a Pequim um posto avançado próximo de uma das suas vias de navegação marítima mais concorridas.

“Não queremos nos ver numa situação como a do Sri Lanka, em que não conseguiram pagar e os chineses acabaram se apropriando do projeto” disse Lim. Em entrevista recente ao The New York Times, Mahathir deixou claro o que achava da estratégia da China. “Eles sabem que, quando emprestam grandes somas de dinheiro para um país pobre, no final irão se apropriar do projeto. A China sabe muito bem que teria de fazer tratados desiguais no passado impostos ao país pelas potências ocidentais”, disse Mahathir, referindo-se às concessões que ela teve de fazer após sua derrota nas guerras do ópio. “Assim, o país tinha de ser simpático para conosco. Eles não podem não se permitir a isto”.

A Malásia por muito tempo serviu como uma presa dos impérios, com uma importância geopolítica que inflava seu tamanho relativamente pequeno. Portugueses, holandeses e ingleses se concentraram aí, ávidos para controlar uma base ligando o Pacífico e o oceano Índico. A China é a mais nova potência a procurar compartilhar do tesouro.

Kuantan, cidade malaia na costa do Mar da China Meridional, nunca foi um ponto crucial. Mas a China passou a dar um peso militar às suas aspirações territoriais no mar, onde cinco outros governos, incluindo o da Malásia, também têm reivindicações.

O financiamento chinês começou a chegar a Kuantan há cinco anos. Guangxi Beibu Gulf International Port Group, empresa estatal de uma obscura região autônoma chinesa, obteve um contrato respaldado pelo governo malaio para construir um terminal em águas profundas e um parque industrial. Próximo dali ficava uma parada planejada da East Coast Rail Link que seria financiada em grande parte pelo Export-Import Bank of China, instituição governamental chinesa.

O governo de Mahathir tem pouco mais de 100 dias. Nesse período, afirmaram autoridades malaias, foi descoberto que bilhões de dólares em contratos chineses inflados foram usados para pagar dívidas de um fundo de investimento estatal malaio no centro de um escândalo de corrupção que levou à queda de Najib.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos acusou Najib e sua família e amigos de roubarem bilhões de dólares desse fundo, chamado 1Malaysia Development Berhad, ou 1MDB, Quando o fundo endividado começou a vender os ativos, duas gigantes estatais chinesas, a China General Nuclear Power Corporation, e a China Railway Engineering Corporation, se apresentaram, provocando especulações de que Pequim ficou feliz em manter o governo de Najib de pé.

Sentado diante de sua mesa durante uma entrevista após a eleição, Mahathir apontou para um maço de papéis diante dele. Era uma proposta de uma companhia construtora malaia que continha evidências de que a East Coast Rail Link poderia ter sido construída por menos da metade dos US$ 13,4 bilhões contemplados no contrato firmado com a China Communications Construction Corporatio, empresa estatal chinesa com enormes operações o exterior.

Na semana passada, Lim, o ministro das Finanças, disse ao Parlamento que a Malásia não conseguiria cobrir os custos operacionais da ferrovia, muito menos as despesas de capital, estimados em quase US$ 20 bilhões, e não mais US$ 13,4 bilhões.

“Parece que nem todo esse dinheiro está sendo usando para construção da linha ferroviária”, disse Mahathir. “A probabilidade é que o dinheiro foi roubado”.

Investigadores malaios estão analisando se um sócio do enteado de Najib teria intermediado o contrato da ferrovia para reduzir a dívida acrescida pela iMDB ou financiar a campanha de reeleição de Najib.

Embora o papel do dinheiro chinês no socorro ao governo endividado de Najib tenha despertado a maior atenção, outro megaprojeto chinês suscitou ainda mais dúvidas quanto aos objetivos geopolíticos de Pequim.

A cidade malaia de Malacca foi outrora um canal por onde circulavam as especiarias e tesouros que iam da Ásia para a Europa. O estreito que leva o nome da cidade ainda é o canal através do qual trafega grande parte do comércio por via marítima da Ásia e a maior parte das importações de petróleo da China.

Mas o porto de Malacca hoje é um remanso. Singapura, pelo contrário, que fica na extremidade sul do Estreito de Malacca, hoje é o terminal de transporte marítimo de mercadorias mais agitado do mundo.

Um projeto de desenvolvimento de US$ 10 bilhões – respaldado pela PowerChina International, uma importante concessionária chinesa, e dois desenvolvedores de portos chineses – deve fazer com que Malacca volte a ter importância global, como uma parada vital na rota do comércio marítimo que se estende de Xangái até Roterdã, na Holanda.

O projeto MelaKa Gateway inclui três ilhas artificiais e uma ilhota natural expandida, que abrigará um parque industrial, um terminal de navios de cruzeiro, um parque temático, uma marina, o centro financeiro offshore e um hotel sete estrelas.

E será construído também um porto em águas profundas, com enormes embarcadouros que podem receber mesmo um porta-aviões. A operadora do porto firmou um contrato de leasing de 99 anos para o terminal e não de 30 anos como é mais comum.

A sócia local do Melaka Gateway é a KAJ Development, que entre suas realizações anteriores estão a construção de um zoológico e um aviário. Para explicar como uma empresa pouco conhecida conseguiu se associar a companhias chinesas para transformar esse local tão estratégico, os moradores sublinham os vínculos estreitos entre o diretor da KAK Development e a máquina do partido de Najib.

“Temos muitas dúvidas quanto ao projeto, mas nenhuma resposta”, disse Sim Tong Him, ex-legislador de Malacca. “Como a KAJ conseguiu o contrato? E o que acontecerá se o lado malaio não puder pagar?Os chineses são muito reservados quanto a isto. O que nos deixa com um mau pressentimento”.

Pequim financiou a construção de portos no Oceano Índico, e especialistas militares levantaram a possibilidade de estes portos um dia receberem submarinos e navios de guerra chineses.

“Você olha o mapa e pode ver os lugares onde a China vem planejando portos e investimentos, de Mianmar ao Paquistão e Sri Lanka, na direção de Djibut”, disse Liew Chin Tong, vice- ministro da Defesa de Malásia. “O que é crucial para tudo isso? Nossa pequena Malásia e o Estreito de Malacca”. / Tradução de Terezinha Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.