Maliki, o incompetente de boa fama

Maior mérito de premiê do Iraque em 8 anos foi cunhar a imagem de que é indispensável; seu legado é desastroso

Zaid Al-Ali, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2014 | 02h02

Há algo de paradoxal nas eleições parlamentares do Iraque de ontem. Embora quase unanimemente os observadores considerem que os últimos quatro anos foram desastrosos para o país, muitos ainda estão dispostos a defender o trabalho do primeiro-ministro Nuri al-Maliki - chegando a sugerir que não existe mais ninguém capaz de governar.

A triste realidade é que - considerando todos os acontecimentos desses oito anos em que ele esteve no cargo - poucos iraquianos são mais impróprios do que Maliki para exercer a função de primeiro-ministro. Um terceiro mandato provavelmente seria ainda mais desastroso do que o segundo, levando à deterioração da segurança e a uma nova era de autoritarismo.

Os defensores de Maliki costumam afirmar que ele foi em grande parte responsável pela melhoria da segurança, em 2008, que é um articulador político muito hábil, que conseguiu superar todos os seus adversários e se tornou indispensável para a sobrevivência do Estado. A análise pareceu comicamente generosa em 2010, mas agora beira o ridículo e o suicida.

É verdade que, com suas manobras, Maliki se impôs aos adversários - mas o fez às custas das instituições iraquianas. Ele simplesmente passou a controlar as forças de segurança e ameaçou todos os seus oponentes, obrigando-os a se submeter. Monopolizou a tomada de decisões no Ministério da Defesa e no do Interior e começou a dar instruções diretas a cada unidade - desse modo, minou completamente o conceito de uma cadeia de comando profissional.

Embora tratasse rapidamente de se atribuir o crédito pela melhoria da segurança em 2007 e em 2008, oficiais militares americanos responsáveis pela supervisão do reforço de tropas que escreveram livros de memórias detalhados sequer mencionaram a atuação de Maliki - e quando ele aparecia, quase nunca era descrito de uma maneira positiva.

Sua decisão de enfrentar as milícias xiitas na cidade de Bassora e no bairro de Sadr City, em Bagdá - muitas vezes citado como prova de suas credenciais não sectárias e de sua ousadia no campo de batalha - foi um desastre nos primeiros estágios, precisamente porque Maliki estava no cargo. Somente depois que as forças americanas intervieram a batalha foi vencida.

Maliki e seu círculo mais próximo também aumentaram os riscos para a segurança com uma série de erros elementares, como o cometido quando ele prendeu injustificadamente milhares de jovens inocentes e permitiu que a corrupção saísse do controle, a ponto de agora prejudicar seriamente a capacidade das forças de segurança. Unidades militares e a polícia de todo o país agora ignoram ou participam ativamente quando as máfias locais obrigam empresas a pagar por sua proteção. As forças de segurança da capital ainda são obrigadas a usar falsos detectores de bombas para que o governo (responsável pela compra dos equipamentos) mantenha as aparências. Consequentemente, o número de mortes quase triplicou no ano passado, porque carros-bomba continuam devastando unidades do Exército e áreas civis com eficiência impiedosa. Ao mesmo tempo, confrontos armados entre revoltosos e forças do governo tornaram-se mais frequentes.

O Iraque mais uma vez corre o risco de se tornar um país dividido. Amplos setores da província ocidental de Anbar rebelam-se abertamente. As forças de segurança desistiram essencialmente de tentar controlar partes da província setentrional de Nínive, que se tornou um importante centro financeiro para as organizações terroristas. A província oriental de Diyala testemunhou em várias ocasiões brutal derramamento de sangue enquanto as milícias e as forças do governo disparavam contra áreas civis. O Exército oficial e a polícia revelaram-se sempre dispostos a prender e torturar inocentes, mas impotentes para controlar as ações das poderosas milícias que agora provocam os maiores desmandos. Com as forças de segurança incapazes de enfrentar a ameaça, as milícias xiitas começaram a dar instruções aos militares - às vezes substituindo-os na batalha.

Os hospitais se encontram numa situação tão calamitosa que os médicos iraquianos jamais pensariam em recorrer a um dos seus colegas para se tratarem. Eles viajam para diversas capitais da região ao menor problema de saúde. A produção de eletricidade melhorou pouco, a ponto de verões e invernos ainda serem marcados invariavelmente por cortes diários de energia, alguns dos quais podem durar dias. Maliki permitiu que uma forma grotesca de nepotismo corroesse a burocracia estatal, marginalizando os poucos funcionários competentes que sobreviveram ao governo do Partido Baath e às guerras.

Esses fracassos também contribuíram para impedir o surgimento de alternativas ao status quo. O Iraque não carece de administradores e políticos competentes - carece apenas de tradições democráticas que lhes permitissem desempenhar um papel maior na revitalização do governo moribundo. Vários nomes surgem imediatamente: Mohammed Allawi, ex-ministro das Comunicações que se demitiu em protesto quando Maliki continuou nomeando pessoas incompetentes do seu partido para o seu ministério; Ali Allawi, um ex-ministro da Defesa e das Finanças, que, em 2006, deixou o governo revoltado com a corrupção; Adel Abdul Mahdi, um político respeitado que poderia ter respaldo suficiente para formar um governo; e Ali Dwai, governador de uma província do sul que é conhecido por sua eficiente atuação em circunstâncias difíceis.

As relações sectárias agravaram-se consideravelmente e a população em general está aterrorizada com a eventualidade de um novo conflito. Uma mudança será necessária precisamente para restaurar a possibilidade de uma melhoria dos rumos do país. Com Maliki, essa possibilidade não existe.A popularidade do premiê chegou ao pico de 24% dos votos em 2010, quando muitos iraquianos ainda acreditavam em suas credenciais de homem forte não sectário. Entretanto, o sistema parlamentar iraquiano complexo e pouco funcional permitiu-lhe negociar a própria sobrevivência. Depois da contagem dos votos, o futuro do Iraque dependerá da capacidade dos seus líderes de formar uma aliança sem os elementos mais corrosivos do país a sua frente. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ZAID AL-ALI É ESPECIALISTA EM DIREITO CONSTITUCIONAL COMPARADO

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