Malineses deixam cidade ocupada pelos rebeldes

Cerca de 2 mil moradores de Diabaly fugiram da localidade tomada por militantes islâmicos e sob ataque da França

NIONO, MALI, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h02

O tabelião Moumouni Ouédraogo fugiu na tarde de sexta-feira de Diabaly, levando consigo 34 pessoas, entre elas as mulheres e filhos de dois militares. Em entrevista ao Estado, no gabinete do prefeito de Niono, Moriba Coulibaly, o tabelião descreveu a situação em sua cidade, sob a ocupação dos rebeldes islâmicos e os bombardeios franceses.

Ouédraogo disse que assistiu na terça-feira os combatentes executarem na rua um militar, identificado pela calça que usava. Segundo ele, os militantes chamavam as crianças, davam-lhes biscoitos ou 2 mil francos da África Ocidental (R$ 9), perguntavam onde moravam e o que os pais delas faziam. Se fossem militares ou funcionários públicos, eram perseguidos e mortos.

O tabelião afirmou que o líder do grupo é um capitão de Diabaly chamado Oussouman Ag, que desertara junto com alguns de seus comandados. "Ele estava com dois filhos que nasceram em Diabaly, cuja certidão de nascimento eu fiz." Ele disse que os militantes usam barbas e trajes tradicionais, chamados de boubou, com calças militares e coturnos por baixo. Em geral, andavam na cidade com um fuzil no ombro e uma pistola em um coldre amarrado na perna.

De acordo com Ouédraogo, eles são em sua maioria tuaregues malineses. Ele não viu nenhum árabe dentre os militantes, em contraste com relatos de que haveria argelinos entre eles.

Ouédraogo disse que se sentiu "aliviado" quando começaram os bombardeios franceses - e elogiou a sua precisão. "Vi uma camionete ser atingida entre duas casas. O projétil caiu exatamente no veículo, explodindo e matando os ocupantes." Ele afirmou ter visto 17 veículos "calcinados", 11 combatentes islâmicos mortos no primeiro dia de bombardeio e outros 12 no segundo. O tabelião não soube de nenhum civil morto pelos bombardeios. Segundo uma fonte no quartel do Exército malinês em Niono, 37 feridos chegaram à cidade vindos de Diabaly.

O prefeito de Niono afirmou que cerca de 2 mil dos 15 mil moradores de Diabaly fugiram da cidade desde a segunda-feira. "Fomos salvos por François Hollande", disse, referindo-se ao presidente francês. Coulibaly admitiu que existem pessoas na região que comungam nas visões dos radicais islâmicos.

Tanto o tabelião quanto o prefeito manifestaram sua hostilidade em relação aos tuaregues - 10% da população do Mali -, aos quais Ouédraogo se referiu como "mercenários". À pergunta sobre se o norte do Mali deveria ser entregue aos separatistas tuaregues, Coulibaly respondeu: "Jamais. Nossa nação é uma só". Os separatistas, de orientação laica, vieram no início do ano passado da Líbia, onde eram apoiados por Muamar Kadafi. Aliaram-se ao grupo Ansar Dine (Defensores da Fé), ligado à Al-Qaeda, e ocuparam três províncias do norte, que representam dois terços do país. A aliança se desfez em junho, diante do plano do Ansar Dine de implantar uma república islâmica em todo o Mali. / L.S.

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