Malvinas e a relação não tão especial de Reagan e Thatcher

Hesitação americana em apoiar a guerra afastou aliados

O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h04

Com a aproximação do 30.º aniversário da Guerra das Malvinas, as tensões estão novamente se intensificando no Atlântico Sul: a Grã-Bretanha enviou à região o destróier HMS Dauntless e o príncipe William, o segundo na linha de sucessão ao trono, o que levou a Argentina a se queixar da "militarização" britânica. A resposta americana foi neutra. Washington encorajou ambos os lados a resolverem suas diferenças por meio do diálogo - sentimento herdado da crise de 1982, quando os Estados Unidos fizeram todo o possível para evitar uma guerra e a obrigação de escolher entre aliados importantes.

Hoje em dia, a lembrança que temos daquele momento é um pouco diferente: o conflito é muitas vezes celebrado como ponto alto do elo "especial" entre o presidente Ronald Reagan e Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica. Ainda assim, a resposta dos EUA na época - e as subsequentes tentativas de revisá-la - são exemplo do quanto esse relacionamento histórico era complexo e até difícil, na verdade.

Quando Reagan tomou posse, em janeiro de 1981, Thatcher já governava há mais de um ano e meio. Eles se proclamaram almas gêmeas conservadoras.

"Seus problemas serão nossos problemas", disse ela ao americano no primeiro encontro em Washington. "Quando precisar de amigos, estaremos ao seu lado." Posteriormente, James S. Brady, assessor de imprensa da Casa Branca, brincou dizendo que "foi preciso usar um pé de cabra para separá-los".

Mas, durante a Guerra das Malvinas, parecia mais provável que Thatcher usasse este mesmo pé de cabra para atacar o presidente.

Embora a maioria dos americanos nunca tivesse compreendido de fato a confusão envolvendo as Ilhas Malvinas, para britânicos e argentinos, a invasão daquelas ilhas batidas pelo vento era assunto sério. Thatcher, pressionada a renunciar, esperava receber o apoio decidido de Reagan na missão de retomar as ilhas pela força.

Em vez disso, a resposta dele foi uma estudada neutralidade. "Somos amigos de ambos os países", comentou o presidente, calmamente. Valeria mesmo ir à guerra por causa daquilo que ele chamou de "pedacinhos congelados de terra lá embaixo"? A afável retórica de Reagan ocultava um dilema estratégico. Os EUA tinham uma antiga aliança com a Grã-Bretanha, mas, em 1982, a junta militar argentina tinha se tornado uma importante aliada latino-americana na Guerra Fria.

Antes da invasão, quando a liderança argentina perguntou a Vernon Walters, itinerante embaixador de Reagan, o que ocorreria se a Argentina tomasse as Malvinas, ele respondeu que os britânicos iriam "se queixar, espernear e protestar - e nada mais".

É claro que esse cálculo se mostrou equivocado. Thatcher enviou uma força-tarefa para retomar as ilhas e ficou "horrorizada" quando Reagan a pressionou para que não combatesse. Alexander M. Haig Jr., secretário de Estado, viajou milhares de quilômetros entre Washington, Londres e Buenos Aires numa fracassada tentativa de se chegar a um acordo. Para recebê-lo em Downing Street, Thatcher colocou em exibição quadros do Duque de Wellington e de Lord Nelson, dois dos maiores heróis de guerra britânicos, como sinal de que o país estava pronto para o combate.

Thatcher informou a Haig que estava "pasma" diante da atitude de Reagan e da "constante pressão para enfraquecer" sua posição. Quando Reagan telefonou no dia 31 de maio insistindo a ela que "demonstrasse a disposição para buscar um acordo", a primeira-ministra finalmente perdeu a paciência. "Estamos numa democracia e aquela ilha nos pertence", vociferou ela. "O pior resultado para a democracia seria se fracassássemos agora." Ela exigiu saber o que fariam os EUA se o Alasca fosse invadido. Constrangido a se calar, Reagan encerrou o telefonema balbuciando.

James Rentschler, funcionário do Conselho de Segurança Nacional que acompanhou o telefonema, disse que "o presidente acabou transmitindo a impressão de ser ainda mais covarde do que Jimmy Carter".

Essa atitude contrastou muito com a do presidente socialista da França, François Mitterrand. John Nott, secretário britânico da Defesa, escreveu: "Mitterrand e a França foram nossos maiores aliados".

A Grã-Bretanha derrotou a Argentina em junho de 1982, mas a vitória não pôde ocultar as fissuras ocorridas entre Reagan e Thatcher. Quando George P. Shultz substituiu Haig como secretário de Estado, no mês seguinte, percebeu que o presidente estava "farto da atitude imperiosa dela".

Diante das câmeras, o par continuou a apresentar uma imagem de harmonia política e pessoal. "Trata-se de uma relação especial", disse Thatcher a respeito dos laços entre eles, em 1985. "Simplesmente especial."

Mas, nos bastidores, os dois líderes se enfrentaram em quase todas as decisões internacionais: a imposição de sanções ao gasoduto soviético, os déficits orçamentários, o controle de armamentos, a Iniciativa de Defesa Estratégica e até a invasão americana de Granada, em 1983, na qual, numa inversão dos papéis desempenhados na crise das Malvinas, Reagan viu-se frustrado com a falta de apoio oferecido por Thatcher.

A tensão entre eles era especialmente alta em se tratando do relacionamento de Reagan com o líder soviético Mikhail Gorbachev, principalmente durante a reunião de cúpula de Reykjavik em 1986, quando Thatcher chegou a pensar que a agressiva busca de Reagan pelo desarmamento nuclear teria chegado a um passo de se tornar uma traição de toda a aliança ocidental.

Tudo parecia apontar para a célebre frase de Lord Palmerston, que foi primeiro-ministro no século 19, com a qual Gorbachev surpreendeu Thatcher ao citá-la no primeiro encontro entre ambos. "Os países não têm aliados nem amigos permanentes", disse Palmerston, "têm apenas interesses permanentes".

Tais interesses com frequência obrigavam Thatcher a manter para si aquilo que pensava de Reagan.

Aqueles que conseguiam enxergar além da fachada sabiam que a situação era diferente. Quando sir Nicholas Henderson, embaixador britânico em Washington durante a Guerra das Malvinas, foi indagado nos anos 90 se tinha chegado ao conhecimento dele alguma informação que fosse absolutamente secreta, respondeu: "Se eu lhe revelasse a verdadeira opinião de Thatcher a respeito de Reagan, isso prejudicaria as relações anglo-americanas". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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