Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

Mandela lidera transição e consolida a democracia

Peso político ajudou a pacificar a África do Sul e abriu caminho para que ele se tornasse o primeiro presidente negro do país

O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2013 | 00h46

A libertação de Nelson Mandela não foi o fim imediato do regime, mas um dia após sair da prisão, em seu primeiro discurso, deixou um recado: o apartheid não tinha futuro. Frederik de Klerk não queria deixar o poder e apostava em uma grande coalizão anti-CNA. Outra dificuldade de Mandela era a animosidade do chefe zulu Mangosuthu Buthelezi, líder do Partido da Liberdade Inkhata (IFP).

Entre 1990 e 1994, o IFP recebeu apoio clandestino do regime branco, que tentou dividir os negros. Em junho de 1992, operários zulus, com a ajuda de policiais brancos, assassinaram 38 pessoas na favela de Boipatong. Em setembro, soldados mataram 28 militantes do CNA em Bisho. De Klerk negou a aliança com os zulus, mas Mandela nunca engoliu a história.

As frentes de batalha não paravam de crescer, até mesmo na vida pessoal. A crise conjugal com Winnie foi devastadora. A lista de acusações contra a mulher tinha sequestro, tortura e assassinato – mais tarde, em 2003, ela colecionaria também queixas de fraude e roubo. Mandela manteve-se ao lado dela – dizia que as acusações eram políticas –, mas não suportou quando a traição foi estampada nos jornais, que publicaram as cartas de amor entre Winnie e seu advogado Dali Mpofu, 27 anos mais jovem. Mandela saiu de casa em fevereiro de 1992.

A vida política também andava mal. De Klerk surfava na imagem de moderado e colecionava elogios de Londres e Washington, aumentando o temor de que ele pudesse fechar um acordo político vantajoso dentro da África do Sul. Em reação, Mandela começou uma frenética volta ao mundo. O resultado da disputa pela opinião pública internacional veio quando ambos – Mandela e De Klerk – ganharam o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.

Em abril de 1993, extremistas brancos assassinaram o ativista do CNA Chris Hani. Para reduzir a tensão, o governo cedeu. Eleições ocorreram em 27 de abril de 1994 e vencidas com facilidade pelo CNA. O maior ícone da luta conta o apartheid chegava ao poder.

Na presidência, Mandela se viu diante de decisões difíceis. Surpreendentemente, seu governo ficou marcado pela disciplina fiscal, administrativa e um forte controle de gastos públicos, desagradando a muitos aliados. Mas o desemprego não cedeu. A esquerda responsabilizou os excessos neoliberais de sua política econômica.

A Constituição foi promulgada em 1996 e a paz com os zulus, selada. De Klerk tornou-se um dos dois vice-presidentes – o outro era Thabo Mbeki –, mas em 1996 foi para a oposição. Na segunda metade do mandato, Mandela delegou ao vice a parte administrativa. A partir de 1996, Mbeki se tornou o presidente de facto da África do Sul.

Como nunca esqueceu os velhos amigos, Mandela defendia os regimes de Cuba, Líbia, Síria e Zimbábue. Ele não quis se reeleger e deixou o governo com uma aprovação de 80%. Diferentemente da ostentação de outros líderes africanos, Mandela viveu de maneira simples. Doava um terço do salário para uma fundação de caridade criada com o dinheiro do Nobel.

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