Reprodução/ TV Estadão
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Manifestações antirracistas podem impulsionar políticas afirmativas e reduzir desigualdades

Especialistas veem reações às mortes de George Floyd e João Alberto como pontos de virada no pensamento sobre políticas raciais nos dois países

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 13h01

Os movimentos antirracistas que emergiram após as mortes de George Floyd - em Minneapolis - e João Alberto - em Porto Alegre - em 2020 podem ser o estopim para a ressignificação das políticas afirmativas raciais no Brasil e Estados Unidos, de acordo com os especialistas que participaram do "Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate", evento promovido em parceria pelo Estadão e pela Embaixada e os consulados dos EUA.

O primeiro painel do evento, que teve como tema "Políticas afirmativas e cotas. O que está em questão?", reuniu Jacques Gilbert, prefeito da cidade de Apex, na Carolina do Norte, Helio Santos, fundador do Instituto Brasileiro da Diversidade, e José Vicente, fundador e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares.

Os três debatedores apontaram que o movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam", no Brasil), iniciado nos Estados Unidos, conseguiu reunir negros e brancos em torno de um mesmo objetivo de oposição ao racismo e na luta pela igualdade, o que pode levar a uma valorização das políticas afirmativas, como de cotas.

Jacques Gilbert lamentou a morte de George Floyd, mas admitiu que seu impacto dentro e fora dos EUA marcam um momento importante, em que a sociedade conseguiu se mobilizar contra um problema que era recorrente, mesmo sendo injusto e errado. 

"(As pessoas viram) A maneira como estavam ignorando o problema, como pessoas estavam sendo tratadas... Infelizmente alguém teve que perder a vida. (...) Foi o início de algo que imagino ser uma mudança verdadeira nos EUA", disse.

A morte de Floyd também teve impacto no Brasil, segundo o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente. O reitor relembrou que os eventos se espalharam por todo o mundo, reunindo inclusive atletas e celebridades. Vicente apontou que, no Brasil, o caso João Alberto - morto por seguranças em um supermercado no Rio Grande do Sul - pode ser considerado como "o caso George Floyd brasileiro".

"(Todo o movimento) Resultou em uma compreensão mais clara e definida dos formadores de opinião e da sociedade que esse país não serve nem para os negro e nem para os brancos. É um país que desrespeita, agride e hostiliza as pessoas. Que não permite que negros e brancos possam explorar o melhor de seu potencial e que mantém um desequilíbrio brutal que separa as pessoas e não permite o mínimo que se pressupõe de uma democracia, que é competir por direitos iguais", analisou.

O poder transformador e mobilizador dos casos mais emblemáticos também foi destacado pelo economista Helio Santos, que apontou que a mudança na sociedade brasileira cobra um preço muito mais alto em vidas do que alguns poucos casos. "Nosso diálogo hoje vai durar cerca de 60 minutos. Nesse período, 3 jovens (negros) na faixa de 15 a 29 anos morrerão a bala. São 63 por dia. Cerca de 23 mil por ano", disse. "Eu penso que essa sangria começa a mudar algo. Finalmente entendemos o seguinte: Se etnia e raça foram utilizadas para excluir, devem ser utilizadas como critério para incluir".

Desigualdades desiguais

Durante o debate, os especialistas brasileiros também apontaram aspectos que diferenciam o racismo identificado nos dois países. Ambos afirmaram ver um fosso  de desigualdade maior no Brasil, amplificado por razões que vão desde a colonização até ao tamanho da população negra no País.

"São 500 e poucos anos de História do nosso país, 400 anos de escravidão, 130 anos da abolição da escravatura e a primeira construção legal de ações afirmativas para incluir negros em ambientes importantes, sobretudo na educação e serviço público está completando 10 anos no ano que vem. Só isso já seria suficiente para a gente perceber o tamanho do fosso", disse José Vicente. 

"A Howard University, onde se formou a vice-presidente Kamala Harris, foi fundada em 1867, para que os negros pudessem se formar em medicina e teologia. Então quando os negros brasileiros ainda estavam escravizados, os negros americanos estavam recebendo seus primeiros diplomas", afirmou. E completou: "Isso é uma medida afirmativa de mais de 100 anos atrás. Ela (a instituição) e outras 130 universidades foram ações afirmativas do governo americano."

Mesmo mencionando diferenças como a quantidade de pessoas escravizadas trazidas ao Brasil, o tamanho da população negra do País e as diferenças coloniais de ibéricos e anglo-saxões, Helio Santos recordou a importância dos diálogos entre os dois países: "O legado de Martin Luther King, que motiva esse encontro, tem como essencia a igualdade racial."

Assista ao debate completo:

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