Eduardo Di Baia/AP
Eduardo Di Baia/AP

Manifestações contra assassinato de militante paralisam Buenos Aires

Revolta. Protestos de rua, greve no metrô e piquetes nas estradas param a capital argentina, após integrante de 23 anos de grupo trotskista ser baleado à queima-roupa em ato contra demissões; sindicalistas aliados aos Kirchners estariam por trás do crime

Ariel Palacios CORRESPONDENTE BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

Buenos Aires parou ontem por causa dos protestos contra o assassinato de Mariano Ferreyra, militante de 23 anos do Partido Obrero (PO), grupo trotskista. O jovem foi morto a tiros supostamente por sindicalistas ferroviários em uma emboscada na quarta-feira à tarde. Os assassinos integrariam a Confederação Geral do Trabalho (CGT), central sindical aliada à presidente Cristina Kirchner.

Outra militante, Elsa Rodríguez, de 56 anos, foi baleada na cabeça e estava ontem em estado grave. O PO acusa o governo Kirchner de conivência na "selvagem matança".

A Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), segunda maior organização sindical da Argentina, crítica dos Kirchners, realizou ontem marchas para exigir que os responsáveis pela morte sejam punidos. Trabalhadores do metrô cruzaram os braços. Estradas que dão acesso à Buenos Aires foram tomadas por piquetes.

Os partidos da oposição criticaram o governo por sua aliança com a chamada "burocracia sindical" da CGT, que nos últimos meses organizou piquetes contra empresas que não se alinham à política econômica dos Kirchners. A oposição também criticou o clima de confronto político estimulado pela presidente Cristina e seu marido e ex-presidente, Néstor Kirchner.

O governo disse que "investigará profundamente" o assassinato e negou vínculos com o setor sindical envolvido na morte. No entanto, o líder dos ferroviários, Mario Pedraza, é um forte aliado da presidente Cristina, com quem esteve na semana passada em um grande comício da CGT no estádio do River Plate.

Desarmados. O assassinato ocorreu quando Ferreyra e seus colegas haviam encerrado uma manifestação contra a demissão de trabalhadores ferroviários terceirizados entre a cidade de Avellaneda, na Grande Buenos Aires e no portenho bairro de Barracas. Os militantes de esquerda - que estavam desarmados - foram atacados pelos ferroviários com pedaços de madeira e metal, além de revólveres. A polícia nada fez diante das agressões dos sindicalistas da CGT aos militantes de esquerda.

Informações extraoficiais indicavam ontem que entre os sindicalistas ferroviários estavam diversos "barrabravas" (hooligans de times argentinos) vinculados a aliados do governo.

O sociólogo e analista de opinião pública Carlos Fara afirmou ao Estado que as manifestações provocadas pelo assassinato de Ferreyra não chegariam a constituir uma crise política real para o governo no curto prazo. "Por enquanto não existem elementos com os quais a Justiça possa acusar o governo diretamente pela morte. Mas isso poderá ter efeitos indiretos na imagem da CGT, aliada do governo, além de dar mais argumentos aos críticos da relação dos Kirchners com os sindicatos."

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