Hadi Mizban/AP Photo
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Manifestações deixam 30 mortos em três dias no Iraque

População protesta contra a corrupção da classe política e o desemprego que atinge 25% dos jovens

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 16h57
Atualizado 04 de outubro de 2019 | 13h38

BAGDÁ - O Iraque passou nesta quinta-feira, 3, pelo terceiro dia consecutivo de protestos, que registraram ao todo 30 mortos em confrontos sem precedentes entre manifestantes e forças de segurança.

Os protestos visam à renúncia dos políticos corruptos e exigem mais empregos para os jovens, um movimento que foi ampliado a grande parte do sul do país, apesar de um toque de recolher. 

A mobilização, que não dá trégua em Bagdá apesar dos tiros para o alto da polícia, representa um grande teste para o governo do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi, que no fim do mês completará um ano no cargo.

O descontentamento social gerado pela corrupção, desemprego e serviços públicos insuficientes resultou em um movimento espontâneo, sem o comando de um partido ou de um líder político ou religioso, algo inédito no Iraque. 

Na quarta-feira à noite, no entanto, o líder xiita Moqtada Sadr decidiu participar e pediu a seus simpatizantes, que paralisaram o país em 2016 com manifestações na capital, que organizem "protestos pacíficos". O pedido do clérigo pode aumentar ainda mais o número de manifestantes nas ruas.

Somente na província de Zi Qar, sul do país, que tem a cidade de Nasiriyah como capital, 17 pessoas foram mortas desde terça-feira. Entre os 30 mortos, há ao menos 26 manifestantes.

Além disso, quase 800 pessoas - entre manifestantes e agentes de segurança - ficaram feridas em todo o país.  

As autoridades denunciaram a presença de "sabotadores" entre os manifestantes e decretaram um toque de recolher em Bagdá e várias cidades do sul do país. 

A conexão à internet foi cortada em grande parte do Iraque nesta quinta-feira. Um site especializado denominou de "restrições intencionais" ordenadas pelos provedores, já que as manifestações foram convocadas pelas redes sociais. 

Durante a manhã, a emblemática praça Tahrir, em Bagdá, foi cenário de uma operação da polícia contra os manifestantes. Os agentes das forças de segurança atiraram para o alto para dispersar dezenas de pessoas que queimavam pneus. 

Manifestantes e policiais se enfrentaram nas imediações de Tahrir, ponto de encontro tradicional dos manifestantes, separada da sensível Zona Verde (onde ficam o Parlamento e a sede do governo) pela ponte Al Jumhuriya. 

Para evitar a entrada de manifestantes na zona, as autoridades fecharam o local, que foi reaberto ao público em junho após 15 anos.

A prefeitura da capital liberou os funcionários nesta quinta-feira, o que pode facilitar o controle das forças de segurança em uma cidade de nove milhões de habitantes. 

Como na capital, os manifestantes bloquearam várias estradas e incendiaram pneus diante de prédios oficiais nas províncias de Najaf, Misan, Zi Qar, Wassit e Babilônia, assim como na cidade de Basra, a grande localidade do sul do país. 

A representante da ONU no Iraque, Jeanine Hennis-Plasschaert, pediu a "redução da escalada".

Os manifestantes exigem melhores serviços públicos em um país afetado por décadas de escassez de água e de energia elétrica, mais empregos para os jovens (25% de desemprego nesta faixa etária) e o fim da corrupção, que dilapidou 410 bilhões de euros nos últimos 16 anos (quatro vezes o orçamento do Estado). 

Iraque, que viveu anos de guerra a partir de 2003 e depois enfrentou a violência dos grupos insurgentes islamitas, especialmente o Estado Islâmico, é o 12º país mais corrupto do mundo de acordo com a lista da Transparência Internacional. / AFP

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