Jeff Siner/The Charlotte Observer via AP
Jeff Siner/The Charlotte Observer via AP

Família divulga vídeo da morte de afro-americano em Charlotte e pressiona polícia

O momento em que um policial negro atira em Keith Scott, que tinha 43 anos e sete filhos, não pode ser visto na filmagem de dois minutos gravada por sua mulher, Rakeyia. A voz dela, no entanto, é ouvida pedindo aos agentes para não abrirem fogo contra seu marido

O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2016 | 11h04

CHARLOTTE, EUA - A família de um afro-americano morto a tiros pela polícia em Charlotte, no Estado americano da Carolina do Norte, divulgou nesta sexta-feira, 23, um vídeo do incidente que desencadeou três dias de protestos e continuou a exortar as autoridades a publicarem seus próprios registros do episódio.

O momento em que um policial negro atira em Keith Scott, que tinha 43 anos e sete filhos, não pode ser visto na filmagem de dois minutos gravada por sua mulher, Rakeyia. A voz dela, no entanto, é ouvida pedindo aos agentes para não abrirem fogo contra seu marido.

“Não atirem! Ele não está armado”, diz ela aos policiais enquanto eles gritam para Scott “largue a arma!”. Cerca de meia dúzia de disparos podem se ouvidos no vídeo divulgado na mídia americana, seguido pelo grito de Rakeyia “Vocês atiraram nele? É melhor que ele não esteja morto”.

A morte de Scott foi a mais recente em uma longa série de casos de negros mortos por disparos da polícia dos EUA que vêm provocando um debate intenso sobre raça e justiça. 

O assuntou ganhou força nas campanhas eleitorais e ontem o candidato republicano Donald Trump afirmou que sua adversária, a democrata Hillary Clinton, tem parte da responsabilidade pela “agitação que afeta o país”. 

“Aqueles que vendem a narrativa de policiais como força racista em nossa sociedade – e essa é uma narrativa que tem o apoio da minha oponente  – tem a responsabilidade social pela agitação que está afligindo nosso país e prejudicando aqueles que realmente têm o mínimo”, disse Trump, na noite de quinta-feira. 

Hillary não comentou o ataque. Mas em um tuíte publicado em sua conta hoje, ela pediu para que a cidade de Charlotte torne público o vídeo da polícia sobre a morte de Scott, na terça-feira. “Charlotte deveria divulgar o vídeo da polícia com os tiros contra Keith Lamont Scott sem demora. Temos de assegurar a justiça e trabalhar para construir pontes e acabar com as divisões”, escreveu. Sua campanha informou hoje que ela irá a Charlotte neste domingo.   

O chefe de Polícia de Charlotte, Kerr Putney, disse que o vídeo feito pelas câmeras corporais dos policiais sustenta a versão dos eventos da corporação, mas se recusou a liberar as imagens ao público. Ele disse a repórteres ontem que divulgar o vídeo agora poderia atrapalhar a investigação do incidente, que está nas mãos do Estado.

“Sei que a expectativa é que essa filmagem em vídeo possa ser uma panaceia, e posso lhes dizer que não é esse o caso”, afirmou Putney, acrescentando que mais adiante irá concordar com sua exibição. “É uma questão de momento e uma questão de sequência.”

Segundo a família da vítima, nos dois vídeos gravados pelos oficiais não se pode distinguir o que Scott tinha nas mãos. A polícia alega que era uma arma, enquanto a família diz que se tratava de um livro. 

mergência. O americano, de 43 anos, foi morto  na terça-feira quando os oficiais buscavam outra pessoa em um condomínio, e sua morte provocou uma onda de protestos que deixou 1 morto, e cerca de 50 feridos, o que levou as autoridades a decretarem o estado de emergência e o toque de recolher na cidade.

A morte do manifestante aumentou a tensão dos protestos que por dois dias destruíram estabelecimentos públicos e privados.  O  suspeito de matar esse  manifestante foi preso ontem, segundo a polícia.

Putney indicou, em entrevista coletiva, que a detenção aconteceu ontem após ter revisado os vídeos de segurança nos quais é possível ver o momento no qual Justin Carr, um afro-americano de 26 anos, foi alcançado por um disparo enquanto participava de um protesto.

Carr, que foi internado  em “estado crítico” na quarta-feira, morreu ontem. O chefe de polícia não divulgou a identidade do detido e disse desconhecer se ele tinha algum vínculo com Carr.

As manifestações em grande parte pacíficas perderam força ontem  à medida que a polícia decidiu não cumprir um toque de recolher imposto após as noites de tumultos. Centenas de pessoas se juntaram na quinta-feira para marchar na terceira noite consecutiva na maior cidade da Carolina do Norte. 

A polícia usou gás lacrimogêneo e projéteis não-letais para dispersar as multidões que tentavam bloquear o t áfego em uma via expressa. Tropas da Guarda Nacional se juntaram ao corpo policial no centro da cidade para ajudar a conter os manifestantes que gritavam “De quem são as ruas? São nossas ruas”.

Um grupo de trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU) comparou ontem as mortes aos linchamentos de negros realizados por gangues brancas nos séculos 19 e 20. / REUTERS, AFP, W. POST e EFE

Veja abaixo: Charlotte decreta emergência após segunda noite de protestos

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